Prefácios
Há quem diga que são as memórias que constroem o que somos. Eu digo que somos nós que erigimos a imortalidade das nossas memórias. Encarar a vida como uma heterogeneidade de experiências e emoções é saber que nada, nunca, foi
É isso que sinto ao ler Matchipisse, a vida impressa de meu pai. Um imenso respeito por cada palavra, cada frase. Absorvo-a como se do seu próprio sopro vital se tratasse e olho-o com olhos novos.
Mais do que uma história, esta obra é o remate d'um novelo de caminhos, de vidas estupefactas cheias de solavancos e de nós que um dia se emaranharam. É assim como o partilhar de tempos idos, o alinhavar de gentes, de cheiros, de uma percepção muito íntima e pessoal da visão de um menino que, como todos os outros, «cresceu, brincou, embirrou, estudou, invectivou, aprendeu o significado de amar e de não gostar.». Um menino que, aninhado nos braços de um criado, herdou a alcunha de «Matchipisse» e que hoje, já homem, nos brinda com uma obra homónima.
Uma forma de homenagem? De registo? De manter viva a memória e a saudade? Julgo que não. Julgo que Matchipisse é o celebrar do que é intenso, mais que o bom ou o mau é a autenticidade que compõe cada página.
Matchipisse é a verdade. Matchipisse é maningue nice.
Rita
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Sempre me inquietei com a vida, nem sabia bem porquê. Algo inexplicável me levava a perguntar a origem do ser, a essência do ter, a resposta a quem sou. Vagueava nas estrelas, no mar, na lua, na imensidão do mundo e tudo me encaminhava a nadas ou a dúvidas maiores, talvez.
Sempre quis saber o que a vida tinha feito com os meus pais, com a minha família. Conhecia a história, o processo, a revolução. E de uma forma distante e conformada sempre ouvi repetir um pesado silêncio de aceitação.
Rever agora em jeito de romance os troços, os passos, as peças de um puzzle por completar, é aceder a todos os caminhos e desenterrar a chave da revelação.
Nestas linhas de memória encontro finalmente o tempo, a razão, a identidade e a explicação para tudo.
Agradeço Matchipisse, a prenda maior que em toda a vida recebi.
Cristina
MATCHIPISSE
Eles lançaram mão a tudo, usaram com as pessoas de cá os mesmos métodos que usaram com as de lá. Não trouxeram divisas, como os emigrantes, mas construíram coisas.
Agostinho da Silva
Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.
Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas.
David Mourão-Ferreira
I
O jantar tornara-se especial. Há muito que se encontravam, comiam e recordavam, mas este momento vivia a coincidência de juntar grande parte dos amigos e familiares de uma adolescência esquecida que lá ficara. A distância que os separava da terra recordada era enorme. O sentimento de amor que os aproximava tornava-se todos os dias mais presente.
O objectivo daquela noite tinha sido diferente. Pretendia-se saber como os outros tinham crescido, se os traumas estavam já enterrados, se alguém necessitava de alguém.
Era uma sexta-feira, 4 de Outubro de 2002, exactamente dez anos após ter sido assinado o acordo de paz de Roma. A partir desse dia a guerra cessara por completo e com o fim das hostilidades entre a Frelimo e a Renamo, o processo de reconciliação entre as partes foi rápido e bem-sucedido. Surpreendendo até os mais optimistas, milhares de refugiados retornaram para suas aldeias e a actividade económica foi sendo reactivada.
Com o facilitado acesso às novas tecnologias, restabeleceu-se o contacto de milhares de moçambicanos a residir no estrangeiro.
O ponto de encontro para este jantar foi defronte de uma cadeia de mulheres, sarcasticamente instalada do outro lado da rua onde também se situava um aeródromo. Dum lado, respirava-se o odor infernal da desgraça enclausurada. Do outro, a sensação de uma liberdade só conseguida nos céus.
E o repasto, no Restaurante a Ponte, fazia a travessia de lembranças das iguarias deste oceano, agora deglutinadas com pouca etiqueta e esmerado apetite, para os sabores característicos daquela terra do Índico. Caril de camarão e de caranguejo eram os pratos favoritos. Já não se comia por necessidade, como aquando do retorno há vinte e muitos anos. Mas as patas e os peitos sumarentos dos crustáceos eram aspirados por bocas que pareciam famintas dos hábitos do Chiveve, outrora feliz e que agora, lúgubre, ainda sucumbia à fome.
Maleca era a mais velha do grupo. Não perdia a tendência de sempre reger os filhos já quarentões e incitava-os a cantar. Madú, a mais nova dos seis irmãos, nascida por engano e considerada um mioma até ao oitavo mês de gravidez, tinha já vinte e nove anos. Não se lembrava de nada, mas conhecia todos os cantos, cantados ou não, do espaço daquele rebanho. Estivera lá, há pouco tempo, impelida por um chamamento telúrico. Percorrera os seus passos pelos destroços de uma infância não vivida. Visitara, num único dia, a terra que só recordava através das conversas que foi ouvindo ao longo da vida. Completando na pose o orgulho pela façanha, ainda tirou algumas fotografias para mostrar aos irmãos, à frente da casa que julgava ter sido sua. Mas afinal era outra, também a poucos metros do cinema S. Jorge.
John, sempre intempestivo, relatava os sonhos e pesadelos daquela terra distante que aprendera a gostar. E amou-a tanto, que foi o último dos irmãos a abandoná-la.
Bebi, de olhos fechados, desfrutava, em voz alta, dos passeios que fazia pela cidade-paraíso da sua adolescência. Fora lá que encontrara o primeiro e único amor da sua vida.
O Vic, projectando no espaço a beleza da sua utopia orgânica, bebia com saudade todos os momentos recordados. Até a conversa lhe servia para fixar, num caderno imaginário, aquele alpendre de multidão, as vigas da amizade, o ondular de ripas do mar em progressão, os degraus já percorridos e ainda não terminados. O seu actual cachimbo transformara-se na reminiscência de muita suruma mortificada defronte do pôr de sol resplandecente e nunca mais consumido. A mulher, Lita, ouvia extasiada todas as esquinas que Bebi ia identificando durante aquele rápido passeio astral pelo Chiveve. Psicóloga, ia tentando decifrar desvios comportamentais para ajudar no minuto seguinte.
A Kate, aparecida depois de um interregno de mais de duas décadas, surgia formosa, acompanhada da sua eloquente gargalhada e da contagiante simpatia que não tinha esquecido em lado nenhum. E já tinha vivido em tantos países!
O Tom, sempre em surdina, recordava com o seu amigo as passagens da juventude precocemente quebrada. Tinha regressado da Austrália há meia dúzia de anos e já se tornara alvo de invejas ao nível do quadro de gestores privados deste país.
O amigo, embevecido pelos rostos recuperados, lembrava-se que em criança se aproximava sempre de qualquer grupo de onde lhe parecia urdir o início de uma história qualquer. Era uma vez para aqui, para ali, era uma vez para uma anedota, para uma explicação, para uma deixa, para um conto, para uma queixa, para tudo e por nada. Depois, a sua vida decorreu tão (a)normal que a necessidade de ouvir e contar histórias se desvaneceu. A fase da sobrevivência fora tão imposta e decadente que nunca se permitiu escrever sobre os horrores de qualquer vida que desconhecia, relatar paixões não vividas ou simplesmente incumpridas.
Às três da manhã, no Pub Sinatra, urinava-se uma vez mais as bebidas tragadas durante a longa noite.
Introspectivo, viajava pelas recordações do convívio que continuou noite dentro, acompanhadas pela extroversão do álcool. Imaginou, então, como é que poderia começar a transcrever uma semente desta sua história adormecida que se desenvolvera furiosamente naquela noite e que, certamente, se desvaneceria se amadurecida e não registada. As razões da sua concepção (porque é que os dias se repetiam?), onde brincara e crescera (porque é que os dias não se repetiram?). Pensou nos seus pais e na sua irmã que não estavam presentes, à procura do pretexto original para os pensamentos que o assomavam.
Começaria pelas injustiças, pelos prazeres, pelas desventuras, pelas brincadeiras, pelas angústias? Daria ênfase ao prazer da carne, ao sol que nascia e que por (ou no) acaso também se punha? Não. Tinha apenas a certeza de que iria começar e depois, quem sabe, tentar acabar como se regressasse à sua meninice e com “era uma vez” iniciaria aquela história que há muito não queria narrar.
Evitando quebrar o feitiço daquela maravilhosa noite do reencontro e enquanto pressentia já os primeiros raios solares a invadirem-lhe a intimidade das lembranças, olhou para a Sky, que utilizando a sua douta sapiência, explicava ao namorado o significado de maningue nice.
- Sabes fofinho, especulemos que tens uma certa predilecção por algo que queres efectivamente alcançar, o objecto de uma acção, de uma ideia, de um sentimento ou de um mero sonho, isto é, o que realmente te dá prazer! Esse objectivo, Fofinho, independentemente do princípio que lhe está subjacente, é maningue nice.
- Ó mulher! - dizia a Maleca - ensina-lhe que maningue quer dizer muito e que nice é bom. Agora que quase podes usar a borla e capelo, devias libertar--te dessas deambulações para explicações inúteis!
O erudito fofinho sorria e enquanto acarinhava a cara da futura sogra, tentava era perceber a melodia para transmitir o gosto, ainda recente, pela marrabenta que se tocava no pub.
O Nel chorava a ausência da sua eterna amada que ficara na Rodésia. A Chris vivia com um indiano e lutava arduamente para conseguir fazer parte do rol dos sobreviventes zimbabweanos de origem europeia. Fora a Kate que lhe dera as novidades e até o endereço electrónico. Nel não conseguia esquecer-se que tinha sido expulso daquele país por interferência da sua sogra. Ela detestava-o (ainda hoje tenta perceber as razões de tanto ódio) e, com a conivência malfeitora da polícia racista, deixou uns pozinhos de cocaína no seu quarto. Foi o suficiente para o tribunal lhe dar vinte e quatro horas para abandonar definitivamente a Rodésia. E para nunca mais ter a possibilidade de contemplar a mulher de todos os seus sonhos. O pesadelo daquela ausência chegava pouco depois com o exagerado consumo de substâncias ilícitas.
Além de Madú, Bebi, John e Sky, a matriarca tinha ainda, ao seu lado, as outras filhas Tété e Anny. Tété, entretinha-se a contar ao Coutinho o seu percurso no Mundo desde que abandonara a Beira. Do Zimbabwe tinha ido para o Kenya, daí para a Papua Nova Guiné e, por último, para a Costa do Marfim. Explicava como tinha encarado, atónita, a clonagem perfeita da Praça de São Pedro, do Vaticano, em plena selva africana, os acepipes indianos aprendidos em Nairobi e o canibalismo dos papuas. Coutinho, esquecendo-se de voltar para o piano, ouvia embevecido as experiências da amiga, enquanto Maleca, a olhar de esguelha, ia absorvendo orgulhosa o entusiasmo do Coutinho como ouvinte predilecto da filha mais velha.
Anny camuflava a angústia de se sentir preterida pela mãe e congratulava-se pela ostentação dourada dos seus adornos pedigree. O marido, ourives português, dava-lhe a oportunidade de mascarar a tristeza com o feitio luzidio de quilos de peças de ouro e brilhantes.
A mulher do Tom também presente, mas mantendo-se quase sempre ausente face à crise que há muito se tinha instalado naquele casamento. Toda a noite esteve calada e introspectiva, sem sequer reagir ao olhar comprometedor que o seu marido ia desferindo em direcção à Kate. Depois, tentando captar a atenção do amigo do marido, incitou-o a engendrar um clic para o despertar, através do registo de algumas recordações que ela não tinha vivido mas que desejava legar como herança às filhas que já iam sabendo que Moçambique tinha sido a terra de toda aquela gente.
II
Era uma vez um menino que tinha nascido num tórrido continente longínquo.
Os seus pais detinham a mesma origem e a avó materna também, mas o avô era de uma ilha próxima de um continente do hemisfério norte, donde provinham os avós paternos.
E o menino cresceu, brincou, embirrou, estudou, invectivou, aprendeu o significado de amar e de não gostar.
Um dia, a terra do menino foi ocupada por pessoas que se intitulavam donas desses domínios mas que, estranhamente, professavam ideais do extremo leste desse tal continente. Apareceram ideias diferentes (e indiferentes aos naturais) que, camufladamente, davam importância a valores sociais que destruíam os valores tribais existentes. Defendiam a queda do capital mas apoiavam-se nele para a destruição das infra-estruturas e, sem escrúpulos, utilizavam-no, também, para a sua promoção pessoal. A cor branca, para eles, representava o sinónimo de indecisão, de sabotagem, de exploração, de vilanagem, de expulsão. Cumpriam orientações de um bando de brancos de uma outra banda.
E assim, o menino foi obrigado a fugir com os pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos que não comungavam desses ideais. Houve quem nem sequer tivesse de engendrar planos para o fazer. Simplesmente foram expulsos para terras distantes onde nunca tinham estado. Quantos pereceram?
Dos que fugiram, uns morreram, muitos enlouqueceram, alguns prosperaram e para os sobreviventes de uma morte antecipada, a vida passou a ser completamente diferente e aterradora. Passaram a querer encontrar-se no cume abrigados de um qualquer sorriso fabricado.
O menino teve de arranjar abrigo nesse continente onde os avós paternos tinham nascido, mas que sessenta anos antes tinham abandonado à procura de melhores condições de vida no hemisfério sul.
As pessoas que agora contactava pareciam-lhe estranhas, nada receptivas e rotulavam-no, e aos demais, de pestilento, drogado, portador de todos os vírus que a partir dessa altura surgiam naquela terra madrasta.
Indignado, o menino desta história teve de crescer de um dia para o outro. Velejado pelas vicissitudes da vida, perdeu a liberdade e até a imaturidade que tanto prezava. E quando, por imposição da vida, se esquece a intensidade de um qualquer beijo maternal é porque certamente se está na fronteira do irracional.
Para não repousar no trajecto irracional de uma história igual a tantas outras, decidiu arranjar um nome. Matchipisse servia bem esse objectivo. Lembrou-se então da origem do nome mas nunca conseguiu recordar o seu significado. O seu criado (coitado, lá ficara), o Ginga e que bem gingão, entretinha-se, nas horas vagas, a tratá-lo como a um filho. Abraçava-o com ternura, defendia-o como um leão e alimentava-o às escondidas com saza[1], a sua poção mágica. Depois de terminadas as tarefas domésticas da sua responsabilidade, conversava com os amigos e referia-se ao menino, que o acompanhava sempre, como “o meu matchipisse”. Depreciativo? Credível? Cortês? O menino desconhecia, mas decidira simplesmente adoptar essa designação como nome da personagem principal do seu primeiro conto.
III
- Olha lá, ó retornado!
Que coisa estranha lhe tinham chamado. Decidira apenas meter-se numa fila para conseguir umas peças de roupa para aguentar melhor o Inverno que não tardava a chegar.
- Desculpe, o meu nome é Matchipisse, não conheço ninguém com esse nome.
- Estás a fazer-te de esperto, ó quê?
Sentia-se abrupto com tanta raiva desferida no seu ego por duas pequenas e dilacerantes interrogações.
- Mas, senhor, não compreendo o que quer dizer com isso, pode explicar que eu entendo!
- Já sou aqui contínuo há dezenas de anos e nunca presenciei bagunça tão grande desde que vocês, retornados das colónias, chegaram a esta terra. E sabes que mais, só te chamei para veres o letreiro e decidires o que te diz respeito, percebes? - virou as costas e dirigindo-se para a secretária, situada no meio de um extenso corredor, continuou a pregar entre dentes:
- Já havia tanto necessitado nesta puta terra e ainda aparecem mais estes!
Agora, quase compreendera. Quando se transgride na vida ela transforma-se numa imensa e complexa teia de obrigações, regras e hábitos. Saiu de uma qualquer fila que tinha um enorme letreiro no guichet a identificar o espaço “Angola” e mudou-se, rapidamente, para outra designada “Moçambique”. Havia ainda referência a “Guiné - Cabo Verde” e “Timor”. Aguardou que chegasse a sua vez para experimentar meia dúzia de casacos velhos que aqueceriam o seu corpo jovem. À saída, olhou para o senhor encasacado que se lhe dirigira e sorriu, agradecendo a informação prestada.
Quando ao fim do dia chegou à casa da barbearia, pendurou no cabide uma samarra que lhe servira a quatro dedos dos pulsos. Crescera tanto na sua terra, sem agasalhos, que já estava com um metro e oitenta centímetros.
Foi de imediato consultar o dicionário à procura do significado da palavra retornado. Só encontrou “retornar” e “retorno”. Ficou tão triste com o que leu que pôs em questão a autenticidade da obra que estava a consultar.
- A palavra retornado a que toda esta gente se refere não existe e consequentemente também não existo, ou deriva de retorno e, nesse caso, prefiro simplesmente continuar a nada ser.
“Retorno: Acto ou efeito de retornar. Mercadoria que se trouxe em troca da que se levou. Aquilo que se dá em troca do que se recebeu. Dádiva em compensação…” Então consideravam-no, e aos seus, mera mercadoria? Os troquinhos de uma mercadoria bem rica que tinha sido acondicionada, embalada e exportada há décadas? Como se poderia libertar da saga de o considerarem apenas uma dádiva em compensação de um óptimo negócio esquerdista?
Recordou os momentos em que deambulava, com os seus amigos adolescentes, pelos Caminhos-de-ferro da Beira. Muitas vezes assistia à chegada de inúmeros vagões apinhados de gado que vinham da Rodésia. Alguns animais mais fracos não resistiam aos dois dias de calor intenso e morriam. Mas sem problemas de maior, pois dava-se baixa de umas quantas cabeças de gado, ora por asfixia, ora por doença súbita e o negócio não parava. Havia seguros que suportavam tudo. Enviava-se açúcar para se receber carros. Abastecia-se maquinaria e em troca remetia-se algodão, chá, sisal e cocos. Tudo mercadoria em troca da que se recebia. Uma espécie de dádiva
O seu continente atravessava a fome que outrora não existia, vítima de uma ditadura aplaudida e que diziam ser do proletariado. Vivia à base de dádivas (e os de cá que lá permaneciam, também). Matchipisse não sentia nenhum prazer em saber que aquele povo morria de fome, que sobrevivia na escuridão, vivia na doença e sem qualquer apoio para ultrapassar essa angústia. Estoicamente, aguardavam pela inexistente compensação. Contudo, Matchipisse sabia que estavam condenados a esperar resignadamente pelo sono que os levaria a adormecer eternamente. Sabia também que a morte, sendo solitária, se transformava em orgasmo absoluto para quem idolatrava o isolamento político canhoto.
Mas nem toda a gente tinha o coração empedrado. A barbearia era o acesso à casa onde coabitava e que tinha sido disponibilizada por uns familiares da sua futura sogra Maleca. Por aí se entrava, por lá se saía e quando às 18h00 se encerrava para os clientes, transformava-se numa acolhedora sala de visitas para os residentes. Recordavam-se bons momentos; combinavam-se estratégias de sobrevivência; dormitavam os que não cabiam em casa, com a garantia única que estariam no exterior antes do barbeiro entrar; reflectiam-se imagens de aconchego e também se ria. Ria-se daquele que viajando num eléctrico pela primeira vez, no dia do seu “retorno”, gritava desenfreadamente para o guarda-freios se desviar da outra composição que vinha em sentido contrário. E de outro, no supermercado mesmo defronte da Duque de Lafões, que ia apontando para todas as prateleiras gritando de alegria o nome de cada um dos artigos que há muito não via:
- Bacalhau! Chouriço, azeite! Olha leite!
E daquela outra que agradecia a hospitalidade de tantos dias com a oferta diária de um saco enorme com sessenta carcaças.
Mas naquela barbearia também se chorava. Chorava-se de revolta. Chorava-se com medo de encarar espaços públicos. Com receio de esmolar e de ficar
Matchipisse queria ajudar na manutenção daquele lar, mas o pouco dinheiro que conseguira trazer tinha-o disponibilizado ao marido da sua irmã que vivia noutra cidade. Tentou aprender a fazer crochet, inutilmente; decidiu pintar quadros, mas a primeira encomenda, um enorme pica-pau para um restaurante com o mesmo nome, que lhe dera oito dias de trabalho intenso, fora-lhe pago com um almoço; fez agulhas para máquinas de tricotar que deram apenas para as despesas. E assim, aguardou que o cunhado, já “regressado” e com expediente, o viesse buscar para cumprir o que lhe havia prometido:
- Vamos tornar-nos sócios e o negócio vai crescer de vento em popa - dizia-lhe o Alberto, logo após a sua chegada. Aguardava, somente, o cheque que lhe taparia alguns buracos.
Que houvesse um momento de sopa, com fartura, era o que Matchipisse desejava apenas.
Dera-lhe todo o dinheiro que conseguira trazer e acreditava, atemorizado pela possibilidade de um dia não ter de comer, que o seu futuro estabilizado estaria nas mãos empreendedoras do seu cunhado.
Os dias foram passando, as peripécias acontecendo e o quarto 118 daquele lar acolhedor era constantemente habitado por diferentes despejados. Era o quarto apresentável daquela pequena casa, o único com cama de casal e que estava sempre reservado para quem aparecia, “entornado”, sem chão para dormitar, sem ombro para chorar. Passou a ser conhecido pelo 118, o quarto das cinco estrelas onde as primeiras noites duma futura longa escuridão eram vencidas com dignidade. Era lá, também, que o seu cunhado John, nas horas vagas, apagava as mágoas do regresso. Fazia amor com a jovem viúva de um piloto da força aérea que lá tinha “aterrado”. Depois, com a namorada que até ali se deslocava para uns minutos de aconchego.
Havia um quarto mais pequeno com beliche, onde nunca dormiam menos de quatro almas.
Uma sala de jantar minúscula, com soalho suficiente para mais duas ou três pessoas. Durante um almoço nessa divisão, a sua irmã fez circular pelos residentes fixos um bilhetinho minúsculo onde se lia: “Quando for grande quero ter umas calças como as dele!”. Ele era um dos regressados sem local onde ficar. Trazia umas calças floridas e um casaco espampanante às riscas conseguido no palácio da Cova da Moura, onde Matchipisse conseguira também a sua samarra. Fazia--se humor com a vida sem ofender a desgraça alheia. Ser trocista com o aspecto dos outros era apenas um dos lemas que levavam aquela família a camuflar o seu próprio aspecto e a esquecer também a sua desgraça. Pedia-se apenas que todos tentassem arranjar uma solução rápida, para que outros se pudessem ambientar à mudança involuntária.
Havia também a cozinha onde chegavam a pernoitar outras tantas pessoas e uma casa-de-banho tão pequena, que só permitia um pouco de isolamento. Era o local de eleição de todos os despejados. Mas para mal dos pecados de quem lá estivesse, a tinta branca do vidro que a separava do quarto do beliche, de tão velha ia caindo às lascas, sendo a responsável pela interrupção de momentos de profunda introspecção.
- John, sai daí porra. Estás sentado na retrete todo vestido e eu aqui tão aflito! - recordava Matchipisse.
- Ó mãe, está aí há tanto tempo e eu daqui vejo que somente olha o espelho! - resmungava o John.
- Hei pessoal! Há tanto tempo na cagadeira e eu com a bexiga quase a rebentar! - alguém se queixava.
E o espaço do pensamento passou a ser tratado, sarcasticamente, como o local do tormento.
Quem canta seus males espanta. Todas as preocupações se desvaneciam, a vontade de comer era substituída pela vontade de cantar, o medo do medo abafado e a recordação da terra queimada, diariamente revisitada pelas canções de lá: Zum-zum, Arram-sam-sam, Wela-shela e tantas outras que se repetiam para nunca se esquecerem. Era assim, quando não se chorava nem se ria.
As noites tinham um encanto especial com as canções daquela família que um dia também seria a dele. Todo o mundo cantava. Mesmo a voz mais desafinada envergonhadamente participava. E ouvia-se Maleca como regente, os cinco filhos presentes sempre a acompanhá-la e todas as outras almas (algumas de espírito ausente) que se iam sentindo familiarizadas com as músicas escolhidas. No fim desejava-se boa sorte aos que ainda não tinham chegado. Ao marido e à filha mais velha de Maleca que ainda não haviam tido a coragem de se entornarem neste país; aos pais de Matchipisse que lá faziam pela vida de cá; a todos quantos se desconhecia o paradeiro.
Enquanto aguardava pelo dia no qual depositara todo o seu espólio e esperança, ia colaborando. Ora acompanhando Maleca para o serviço, ora levando Madú, a mais nova, para o infantário. Muitas vezes chorava à beira-rio imaginando quantas águas teriam sido tocadas por outros rios. Não era Heraclito que dizia que a água de um determinado rio nunca era a mesma? De certeza que esta teria corrido noutros locais e quem sabe até em África! Fitava vezes sem conta o Tejo nauseabundo que se enchia com as suas lágrimas, enquanto recordava o Púngue, perfumado, a correr cheio de vida.
Desde que regressara, Maleca não conseguia andar sozinha. Os espaços públicos inquietavam-na, sentia o desespero de se perder na sua própria terra. Como os infortúnios vêm sempre acompanhados, à única pessoa empregada na casa da barbearia tinha sido diagnosticado agorafobia. Diariamente havia uma alma a endereçá-la ao Ministério da sobrevivência de todos.
No infantário, Madú fora posta de parte porque era filha de quem lhes roubava o sustento, diziam. E a menina chorava. Mas fazia-o dignamente porque parava de chorar no final do trajecto, deixando cá fora todas as lágrimas que não derramaria dentro das paredes da sua reclusão diária.
Do sustento de que muitos se queixavam, houve alguém a mendigá-lo a Matchipisse. Não é que numa das vezes que levava Madú pela mão, lhe apareceu uma fugaz sombra feminina a ofertar-lhe o corpo a troco de uma importância que ele entendia suficiente para se alimentar durante um mês?
- E olha, ó rapaz, com a menina não há problema. Ela espera um bocadinho na sala enquanto tu... zás! Que lhe estaria a acontecer nesta terra, onde mulheres se lhe dirigiam nestes termos, onde as crianças eram, sistematicamente, remetidas a uma evidência seminal, onde o tratavam quase sempre por “retornado”, “pssstt” e “ó rapaz!”.
Nada disto parecia ser verdade, só poderia ser um pesadelo que tardava a dissipar-se.
Defronte da Praça do Poder, onde se determinava provavelmente a sua sorte e a de muitos amigos, sentou-se no Cais das Colunas e recordou o tempo da meninice há tão pouco perdida. Tinham passado apenas três semanas desde que fora obrigado a tornar-se, para sempre, adulto. E aprendera neste espaço de tempo que para amar nesta terra teria de voltar a acreditar no deslumbramento da felicidade e tentar lá chegar sem nunca remeter o pensamento para o passado. Mas era difícil voltar a aprender a amar tendo como única condição, chegar ao dia seguinte sem ter de recordar hoje o dia de ontem.
IV
Como se sentia liberto ao explorar os quilómetros de praia, a conviver com quem se lhe deparasse e a beber, a todas as horas, o ar que lhe enchia a alma de oxigénio! Alimentava-se desse ar terno, envolvedoiro e, julgava-o, eterno. Agradecia ter tido a ventura de lá ter nascido, de aí ter sido criado, aprendido a ciência de amar e a repugnar a evidência de não gostar.
Da varanda do seu quarto visitava todos os dias o esplendor do fim do dia e bebia, sedento, todas as imagens que se lhe iam deparando: os navios a partir ou a chegar, as almadias[2] lutando com a forte corrente da foz do rio, o sol vermelho a querer pôr-se para raiar noutro lado qualquer e os pretos luzidios pelos derradeiros raios a apanharem caranguejos no matope[3] do matagal em frente do Clube 100 à Hora.
Fora em 1887, quando desenvolvido um comando militar na margem direita daquele rio Aruângua (nome atribuído pelos nativos ao rio Pungué) com a missão de procurar evitar as incursões dos povos subordinados ao poder do Gungunhana, que ali tinha sido criado o primeiro núcleo de um povoado.
Em honra do filho do rei D. Carlos, o príncipe da Beira, cujo nascimento ocorreu em 1887, foi dado à povoação o nome de Beira. Vinte anos depois, em 20 de Agosto de 1907, atendendo à excepcional importância da sua posição, manifesto valor no movimento do seu porto, do tráfego dos caminhos de ferro e em comemoração da visita do príncipe Real, Luís Filipe, a Beira foi elevada à categoria de cidade.
Do seu quarto, ainda vislumbrava a escassos quinhentos metros, através de uma estrada de terra batida, o imponente Grande Hotel. Local predilecto para a realização das grandes festas da sociedade que para lá transferia o requinte das passerelles europeias. Mesmo defronte, bem perto da praia das suas miragens, no Clube do ATCM[4], disputavam-se as jogadas de canasta e dançava-se noite fora ao som das bandas de sucesso.
Nessa praia, assistiu um dia, com a namorada, ao espectáculo mais reconfortante e repousante de África. Admiravam extasiados o pôr de sol, navegando numa overdose de beleza transcendental. Todas as cores vivas e sanguinárias iluminavam o horizonte rente ao mar, enquanto este as reflectia no azul transparente da sua leve ondulação. À medida que o olhar se erguia, os tons tornavam-se mais suaves, acabando por se abraçarem no azul escurecido que aguardava, sem pressa, que a noite chegasse.
Do lado direito, erguia-se a silhueta de uma velha casuarina já bastante ferida pelo constante afago de vento e mar. Por sua causa, a praia era conhecida somente pela Praia dos Pinheiros e não pela praia das casuarinas.
Enquanto desfrutavam de tanto arremesso de visões divinas, enquanto transpunham toda essa infinitude de prazer inatingível em carícias até então nunca permitidas, foram subitamente confrontados com a presença hostil de uma patrulha da Frelimo.
- Que estás fazendo aqui camaradas? Vocês são os drogado?
Armados até aos dentes e muitos deles sem os terem, ofereciam a antítese da beleza ora em contemplação.
- Drogados, sim, pela imagem que têm à vossa frente, camaradas! Haverá algum problema em estarmos aqui a beneficiar desta pintura que amanhã, de certeza, será para todos nós diferente?
Os olhos daquela gentalha evidenciavam a sensação de que todos se dirigiam para a mão esquerda de Matchipisse que estranhamente ainda afagava o seio esquerdo de Bebi.
- Olha lá, ós camarada, tira lá essa mão dos mama dos minina e puxa aí cigarro p’ra gente.
Só nessa altura se apercebeu que durante o breve diálogo permanecera paralisado. Que mais lhe poderia oferecer tanto repouso a não ser esse contacto quente na palma da sua mão? Sentir aquele mamilo na sua linha da fortuna sem sequer se aperceber da alteração das batidelas do coração de Bebi?
- Ah, sim... desculpa lá camaradas, eu tenho este maço de GT bem cheio e podem distribuir por todos vós, está bem? A gente vai embora e juro que nunca mais aqui voltamos.
Enquanto os oito ou dez homens distribuíam, entre si, os cigarros e os acendiam, o casal levantou-se rapidamente (ainda as cores do pôr do sol aguardavam a atenção dos únicos espectadores da plateia da Praia dos Pinheiros) e metendo-se em cima da mota fugiu sem nunca mais olhar para trás, tal o medo de se ver transformado, qual Pompeia, em inúmeros grãos finos de areia do Índico.
Matchipisse cortou definitivamente essa praia do seu percurso.
Na semana seguinte, estando num bar a tragar uma bebida com uns amigos, falavam da vida e de tudo; recordavam os que já tinham decidido fugir e os que ainda pretendiam permanecer; as reuniões que tinham sido proibidas. Discutiam-se preocupações que há seis meses ninguém abordava. Antes, falava-se no tempo que faria no dia seguinte, do filme de Domingo no Cinema Nacional, da cremalheira necessária para a prova de motocross, dos rissóis de camarão na Mexicana, da festa no Macúti, da corrente fria na água morna da praia do Mira-Mar, da tacada no mini golf das Palmeiras.
Agora, previam-se acontecimentos imprevistos.
Pela primeira vez concordava com o que sempre discordara: aceitava que os seus amigos abandonassem Moçambique, já não guardaria ressentimentos.
Falavam há muito, porventura aligeirados pelas inúmeras e encorajantes cervejas Manica[5] de tamanho bazuka[6], quando outra patrulha os interrompeu.
- Os dentificação? - gritaram três homens armados com espingardas Simonov, rotos. Um deles caminhava com chinelos de borracha, deixando que os seus pés, sujos de tanta porcaria e inalando um cheiro execrável, fosse observado tal como se de um animal selvagem e mal cheiroso se tratasse.
- Se não tem, vai tudo nos réducação[7].
- Então camaradas, tenham calma. Nós somos brancos, mas Moçambicanos. Estamos aqui a festejar o aniversário deste amigo e mais nada - Matchipisse ficou admirado com a mentira que, inadvertidamente, engendrara. Ele que se sentia tão feliz com a eminente independência, que até chegara a acreditar no discurso intempestivo de Samora e a engajar-se em diversas actividades de cariz político-social, via-se agora numa situação de desconforto causada por pessoas que glorificava. Mentia simplesmente e fazia-o à frente de todos os seus amigos. Os que pretendiam ficar e os que ansiavam fugir.
- Você és surdo? Quero ver esses cartão com os cabeço e fecha os boca! - referia-se a qualquer bilhete de identificação que tivesse uma fotografia. Estudantes que eram, todos mostraram o cartão de desconto do Cinema Nacional, o ponto de encontro da juventude beirense que assistia, sem convicção, aos filmes de karate, aos indianos e a quaisquer outros. Os filmes pouco interessavam, não se perdia era a oportunidade de sentir, com paixão, a mão trémula do vizinho escolhido. As cadeiras do cinema eram ocupadas por rapazes e raparigas, cadeira sim, cadeira não. Um dia Matchipisse levou um amigo rodesiano que se sentou entre Bebi e uma amiga. Depois das luzes se apagarem, um berro foi audível em toda a sala do cinema: - Ó Matchipisse, diz ao Bill para tirar a mão! - seguindo-se uma gargalhada geral.
- Então e os cartão dos minina? - Bebi não tinha qualquer identificação e sentia o corpo a estremecer de medo, imaginando-se no campo de reeducação da Gorongoza a ser obrigada a trabalhar na machamba[8], apenas com uma capulana[9] a cobrir-lhe as partes baixas até aos pés.
- Mas eu esqueci-me do cartão em casa, juro. Posso telefonar ao meu pai, que trabalha na Fazenda, e ele resolve este problema convosco.
A voz trémula deixava transparecer o aviso de que não conseguiria aguentar pensar sequer que seria levada para o campo do inferno da reeducação.
De repente, quando já se depreendia que algo de inesperado poderia ocorrer e que Matchipisse não suportaria o vexame a que estava a ser sujeito, ouviu-se a voz do velho Matos, o tal que logo após a revolução de Abril informara todo o mundo que se iria embora, dizendo:
- Ó camaradas, vocês estão cansados, já estão fartos de trabalhar, sentem-se aqui um bocado connosco e vamos confraternizar pelo Moçambique independente. Viva a Frelimo!
Toda a gente deu vivas e durante mais de uma hora deram de beber à dor daquela gente que ansiava, somente, infligir a dor que eles ou os seus teriam sofrido noutras circunstâncias e com outras gentes. Sua avó paterna costumava contar-lhe que quando chegou a Moçambique, há mais de sessenta anos atrás, ficara chocada e em estado hipnótico com o espectáculo de desolação e de solidariedade, que assistiu no pequeno quartel que servia também de prisão para os naturais considerados defensores de ideais subversivos. Em torno de uma fogueira e aprisionados em série, com fortes correntes de ferro atadas aos tornozelos sangrados, faziam rodar um pequeno cigarro por todos os condenados, enquanto cantarolavam uma música inaudível no espaço mas riquíssima no coro.
Bebi arranjou uma oportunidade para se dirigir à casa de banho e nunca mais apareceu. Nem os camaradas se lembraram mais dela.
Matchipisse pensou seriamente nas duas ocasiões entretanto ultrapassadas, mas nunca mais esquecidas.
Cortou definitivamente, também, esse bar do seu percurso.
Posteriormente, fora conhecer em pormenor a terra da sua mãe que era próxima da Serra do Vumba[10]. Já ouvira falar na água milagrosa, na paisagem de um verde deslumbrante, nas velhas minas de ouro, nas gravuras rupestres e na Igreja majestosa que estava de sentinela à vila e ao cemitério cheio de história. Foi com mais dois amigos de mota, à procura de Vila de Manica. Era uma terra paradisíaca, outrora conhecida por Macequece. Diziam que tinha sido adoptada por uma princesa russa fugida da sangrenta perseguição da revolução bolchevique e que lá estavam ainda os seus restos mortais. Matchipisse acreditava que Anastacia, a filha mais nova de Nicolau II, tinha sido salva do fuzilamento pela sua bisavó inglesa Rainha Dona Vitória. Como esta não queria que a Inglaterra ficasse directamente implicada no rapto que iria enfurecer os donos da nova realidade russa, decidiu enviar a menina para a Rodésia do Sul. Apesar do tratamento principesco, a pequena vivia triste e todos dias recordava aquela manhã em que, por sorte, se atrasara uns minutos na casa de banho, salvando-se da morte. Fora depois resgatada e enviada aos tropeções para o palácio de Westminster. Só então soube do assassinato dos seus pais e irmãos e pouco depois embarcava num barco a vapor para o porto da Beira. Antes do final da primeira grande guerra, Anastacia encontrava-se em segurança
Quando a mãe de Matchipisse lá nasceu, em 1924, aquele extenso território de Manica e Sofala ainda era concessionado pela Companhia de Moçambique, criada não só pela actividade empreendedora de algumas personalidades, como pelo contexto internacional favorável no final do séc. XIX. Na sua origem estiveram as múltiplas tentativas do oficial do exército português, Joaquim Carlos Paiva de Andrada, de explorar as riquezas auríferas daquele território, mas também pelo compromisso assumido por Portugal na Conferência de Berlim, em 1885, de assegurar a ocupação efectiva das possessões ultramarinas.
O persistente oficial não desistiu dos seus propósitos e depois de alguns empreendimentos fracassados rumou finalmente para a constituição de uma outra organização mais credível. Juntamente com outras personalidades requereu então ao governo o direito de exploração global, com predominância no sector mineiro existente no distrito da Zambézia e de Sofala. Essa sociedade que se designava por Companhia Nacional de Moçambique, obrigava-se também a construir, no prazo de dois anos, um caminho-de-ferro com trajecto a definir. Reconhecendo as vantagens que esta concessão iria trazer para Portugal, o governo autorizou o projecto pois, desta forma, os seus direitos de soberania nestas regiões também estariam assegurados a nível internacional. Para dar início à sua actividade em Moçambique, a companhia fixou-se em Macequece, local premiado que albergaria muitas das recordações nunca vividas de Matchipisse.
Contudo, o sucesso deste empreendimento era visto com desagrado pela Inglaterra, em virtude de ansiar a criação de um corredor que ligasse os seus territórios do interior ao litoral e que visava expandir a companhia majestática, a British South Africa Company, chefiada por Cecil Rhodes. Queriam conquistar terras há muito consideradas domínios da coroa portuguesa.
Para evitar a entrada dos conquistadores ingleses, em Novembro de 1889, quatro expedições militares, chefiadas respectivamente pelo corajoso e empreendedor Paiva de Andrada, Vitor Cordon, António Maria Cardoso e Serpa Pinto, foram enviadas para a zona de Macequece, fazendo face às constantes investidas dos ingleses. O governo britânico reagiu furiosamente, desencadeando uma ofensiva diplomática e deslocando a sua esquadra naval em direcção a Moçambique.
Em 15 de Novembro de 1890, Cecil Rhodes, autorizado por uma Inglaterra sedenta de vingança, invade a região de Macequece com o intuito de ir conquistando os restantes trezentos quilómetros até atingir a Beira. Paiva de Andrada foi feito prisioneiro. No entanto, Portugal reagiu energicamente no meio diplomático e esse objectivo acabou por não se realizar, tendo sido na sequência destes contecimentos que foi assinado o tratado que, para além de definir as obrigações de ambas as partes na região, definiu também o traçado da fronteira.
A fim de neutralizar o poder da British South Africa Company, Portugal acabaria por impulsionar a constituição da imponente Companhia de Moçambique que desenvolveria o centro do território de Moçambique, direccionando a sua acção para as colossais culturas de exportação - borracha, açúcar, algodão, milho e sisal. E sem os meios para gerir áreas tão grandes e riquíssimas, ganhou fortunas com esta concessão, tendo-se registado um desenvolvimento sem precedentes nesta região, captando a presença milhares de colonos que lá se instalaram no início do séc. XX.
Com a construção da linha-férrea para a Rodésia que se iniciou em 1893 (e em fins de 1896 já atingia Macequece), a Vila viveu um empolgante crescimento para o que também contribuiu a descoberta de mais minas ouro. Todo este desenvolvimento levou à criação da circunscrição de Manica, tendo sido Pery de Lind o primeiro chefe. Foi ainda na regência de João Pery de Lind, como governador do território, servindo a Companhia de Moçambique, e em sua homenagem, que o topónimo de Mandingos foi alterado para Vila Pery.
Em miúdo, quando se deslocava à farm de amigos, Matchipisse ficava perplexo quando os pretos mais velhos se referiam a Mandingo e Maciquessi, como regiões que o régulo Mutassa tinha vendido aos ingleses. Detestavam-no e, decorridos dezenas de anos após as negociações com os ingleses, era ainda considerado um traidor pelos seus conterrâneos. Realmente, antes de invadirem aquele local, em Novembro de 1890, os britânicos fizeram constar a existência de um documento com a pretensa assinatura de um tal régulo Mutassa a oferecer os seus domínios à coroa inglesa.
Macequece fora também o refúgio de uma actriz de teatro parisiense que, cansada da vida boémia e de estrelato na Capital do Mundo, decidira lá passar o resto dos seus dias. Ao contrário da princesa russa, Matchipisse tinha a certeza de que a história desta mulher não era lenda. A sua mãe e os três irmãos, órfãos desde muito cedo, tinham sido criados por ela. Uma educação cheia de valores tradicionais europeus, disciplina com punhos de ferro revestidos da mais formosa renda com tonalidades de paixão, de amizade e de uma afinadíssima sensibilidade artística. Os quatro aprenderam tudo o que não teriam oportunidade de fazer se ela tivesse decidido ser estrela. E passou a ser a estrela destes irmãos até muito depois de ter falecido. A mensagem de gratidão foi passando as gerações. Matchipisse queria rever todos os passos dessa mulher de beleza exótica. Da Senhora que impulsionara o gosto pelo teatro. Da figura principal no sistema educacional da Vila. O exemplo no andar, estar, cumprimentar, exigir e amar.
Aunty Rita, como era conhecida em Macequece, decidira participar com a sua companhia de teatro numa digressão por África logo após a I Grande Guerra. Depois da África francófona, descera para a África do Sul. Aí, fora obrigada a deslocar-se a Lourenço Marques, pois a população branca encontrava-se carente de cultura e exigia a presença da companhia de teatro de Paris.
Inesperadamente, logo após o primeiro espectáculo em terras moçambicanas, apaixonou-se ao primeiro olhar por um advogado português que vivia em Macequece e que se encontrava na capital da Colónia. Homem distinto, solteirão apaixonou-se também, incondicionalmente, pela actriz que, ao longo de quatro espectáculos, representava sempre a fixá-lo. Sem dar qualquer importância aos avisos e protestos dos colegas, abandonou o teatro para acompanhar o príncipe encantado até ao seu ‘castelo’ na vila do centro de Moçambique.
Ele era o melhor amigo do avô de Matchipisse (um nobre latifundiário de origem açoreana, sempre ausente em negócios), a quem havia prometido que cuidaria da mulher e dos filhos se algum dia um azar acontecesse. Pouco tempo depois esse dia chegava. Voluntariamente. A honestidade nos negócios levava muita gente a desistir e o avô decidiu abandonar o mundo. A mulher, de desgosto quem sabe, morreu a seguir. E os meninos, conforme acordado, ficaram à guarda do advogado e da sua companheira que nunca quis ser estrela.
A viagem de Matchipisse para Vila de Manica foi marcada por muitas barreiras armadas da Frelimo. Revistados! Vexados! Insultados!
- Menha[11] nos mezungo[12] de merda... quem vai saber se esse gente fez os uafa[13], camarada comandante?
Os três esperavam apenas que um dos agressores decidisse tomar a iniciativa, pois adivinhavam já o desfecho. Em silêncio pediam a Deus que tudo o que tivesse de acontecer fosse rápido. John, o irmão de Bebi, teve a coragem de os enfrentar crispando-lhes um olhar de revolta e de superioridade:
- Mas o que vem a ser isto, camaradas? Lá por sermos brancos não temos os mesmos direitos e regalias que vocês? Se nos acontece alguma coisa, fiquem a saber que eu conheço o camarada Samora Machel e ele sabe bem que a gente vai em viagem até Vila de Manica.
O comandante que liderava a caterva de revoltados, virou-se e perguntou-lhe de onde o conhecia.
- Olhe lá camarada, eu sou Moçambicano, sou estudante e trabalho também no aeroporto da Beira. Tento a todo o custo aprender cada vez mais para melhor servir esta terra e foi assim que conheci há três dias o camarada Samora Machel quando chegou de avião à Beira. Fique sabendo que tive oportunidade de lhe dizer que vinha fazer esta viagem e ele mostrou-se interessado em saber como íamos encontrar Vila de Manica, entendeu?
John só vira Samora muito ao longe enquanto este se dirigia para a sala VIP, mas tentava a todo o custo impressionar aquela gente. Apresentou imediatamente o cartão que o identificava como Controlador de Tráfego Aéreo. O comandante sorriu e ficou extasiado com as parecenças evidentes e perguntou:
- Chi, camarada, onde tirou estes retrato tão bonitas? Olha, descrupa lá estes gente. Eles ainda não aprenderam os objectivo dos nosso luta.
E entregou-lhes um género de guia de marcha, de modo a evitarem mais contratempos no resto da viagem de ida e, também, para o regresso.
Matchipisse estava indignadíssimo com a recepção da Vila que o vira nascer há apenas vinte anos e, uma vez mais, decidiu cortar definitivamente essa viagem do seu percurso.
Rapidamente, foram ao centro ver os dois edifícios religiosos mais imponentes e emblemáticos da cidade. A catedral católica em estilo neogótico suburbano, perto da sede do governo e dos bancos; e uma mesquita enorme com quatro minaretes em verde e branco, na zona mais comercial. Fazia sentido. O catolicismo era a religião oficial do Estado antes da Independência e o islamismo era a religião dos descendentes de indianos, a maioria comerciantes.
Ainda visitou as duas casas que os seus avós lá tinham construído, a troco do suor de uma vida. Aí explorara, durante as férias escolares, todos os cantos daquela terra. Aí conhecera, pela primeira vez, o modelo da paixão de infância. A Jú, também a passar férias com os avós, abrira-lhe o primeiro rasgo da inércia sexual da idade. Sonhava com a Jú, brincava com ela aos médicos e aos enfermeiros, tocava-lhe levemente na mão sem que ela desse por isso. Tirou-lhe um cabelo e todas as noites o afagava antes de adormecer. A Jú ficara-lhe para sempre como a mulher que o despertara para a mulher no seu todo.
As casas estavam ocupadas por gente estranha. Os quintais, anteriormente floridos e onde colhia uma ou outra flor para depois não dar à Jú dos seus sonhos, ofereciam a imagem de um infantário surrealista, a abarrotar de crianças, galinhas e cabritos. Quando tocou à campainha de uma delas, as galinhas residentes devem ter-se assustado tanto que fugiram para o exterior, cacarejando pragas ao causador do som desconhecido.
- Foi você que tocaste nos buzina? - perguntou uma rapariga forte que trazia um bebé atado às costas.
- Sim, fui eu. Sabe, esta casa é da minha avó e, por curiosidade, passei aqui para ver como está.
- Chi! Mas diz lá umas cuesa. Como as buzina toca se camarada está lá fora? - admirada, desconhecia que o botão do lado exterior da casa, protegido por uma caixa anti-chuva, também tivesse alguma relação com a campainha que ouvira.
- Olhe uma coisa, quando alguém quer saber se tem gente em casa, toca aqui e logo se ouve aí dentro, percebe?
- Cabeça dos mezungo és maningue esperto mesmo. Respondeu a rapariga, continuando logo a seguir:
- Mas você está dizer que esta casa és sua? Erava nos antigamente... agora nos sessão dos esclarecimento nos disseram que toda a casa dos branco é pra nosso.
Entretanto, gesticulava já para um grupo de milícias que se encontrava a cerca de duzentos metros. Sem tempo a perder, os três jovens, a conselho de John, puseram as motorizadas a trabalhar e fugiram daquele quadro.
Rumaram então, finalmente, em direcção a Vila de Manica. E que linda a estrada que unia a outrora Mandingo ao seu destino. As árvores imponentes a abraçarem constantemente a estrada, as casas agrícolas, o arvoredo multicolor a perder-se da vista, o intenso movimento dos farmeiros (agricultores), a linha de comboio com as suas antigas máquinas potentes a transportarem dezenas de vagões e libertando o perfume do carvão em combustão.
Matchipisse pode confirmar que o Jardim de Éden estava de facto localizado em África, algures naquele espaço. Há uns anos tinha lido no Gênesis 2.10-14, que havia pelos menos dois rios que saíam do imponente Jardim, o Gihon a Norte e o Tigirisi a Sul. Só podiam ser o Zambeze e o rio Limpopo. O imenso jardim do paraíso estava defronte dos seus olhos!
A poucos quilómetros de Manica, a paisagem transformou-se completamente e o clima tornou-se mais fresco. A atmosfera das montanhas, que parecia nascer para lá da fronteira, era leve e acariciava com suavidade as suas faces. Havia centenas de tonalidades de verde a contrastar com a imensidão de água a escorrer por todo o lado. Se não fossem alguns bandos de macacos a surgirem de vez em quando, o cenário podia bem ser do melhor dia de verão na longínqua paisagem Suíça.
Chegado a Manica, Matchipisse chorou. O ar da cidade e das suas gentes envelhecido, o ouro esquecido, a população estática transmitindo o desânimo ou até a incapacidade de disfarçar a alegria de outros tempos. A casa colonial daquela grande estrela lá estava imponente mas há muito descuidada. Matchipisse e os amigos passaram lá a noite. No dia seguinte, foram explorar as antigas possessões de ouro. No caminho, parecia que as picadas, imaginando-as salpicadas de pó aurífero, se iluminavam com o reflexo do sol. Os amigos rezaram no cemitério uma prece rápida à estrela que ainda brilhava. Era a única campa que resplandecia naquele espaço abandonado. Também depositaram três rosas no túmulo referenciado como o da princesa russa. Na parte de cima da lápide via-se um brasão não identificado e uma cruz ortodoxa logo por baixo.
John também quis visitar o colégio onde estivera internado durante dois anos. Maleca, atravessando uma fase complicada da sua vida, teve de enviar os dois filhos mais velhos, Tété e John, para o Colégio da Jéqua. Mesmo assim, ainda conseguiu arranjar forças para tratar dos outros três filhos, sozinha.
Há muito que John não chorava, mas nesse dia, contemplando o espaço da sua reclusão, chorou de agradecimento por ter sido tratado com amor e por ter sido educado com esmero. Num ápice, saltou da mota e subiu umas quantas árvores de litchies, deliciando-se com a suculenta fruta que há muitos anos aí tinha descoberto.
De repente, muito ao longe, ouviram-se disparos. John, sem se aperceber de que poderia ser um mero caçador, resolveu dar ordem de fuga, embora não houvesse motivo para o fazer. E, injustamente, Matchipisse considerou este cenário mais um a aniquilar.
No regresso para a Beira, com a chuva a refrescar-lhes as faces, foram contemplar as lágrimas que corriam pelos olhos da Cabeça do Velho. Num extenso planalto, era a única montanha existente com a forma de uma cabeça deitada. Quando chovia, a água do ribeiro, junto aos olhos, corria desenfreadamente até atingir o solo plano.
Numa outra ocasião, fora novamente John quem evitara problemas mais graves. Dirigiam-se de comboio para Mutarara, numa carruagem reservada pela edilidade, para participarem numa competição de motocross. A meio do trajecto, foram quase obrigados a ficar no meio do mato porque um dos participantes se tinha esquecido “dos cartão com os cabeço”. John viu-se ameaçado com quatro ou cinco canos de espingardas a esfregarem-se-lhe na barriga, mas teve a coragem de os enfrentar com o seu olhar audaz, mostrando os papéis que existiam e todos os outros que ia inventando. Bebi chorava convulsivamente temendo um desfecho cruel naquela discussão. Dezenas de participantes e acompanhantes fitavam, incrédulos, cenas nunca pressentidas naquela terra prometida.
Cansado de apagar triviais percursos da sua vida rotineira e sem querer pôr à prova outros tantos que venerava, Matchipisse era obrigado a concordar que a sua permanência se tornava cada vez mais insegura. Pensou, pela primeira vez, em deixar para trás a terra que o vira nascer, que o ajudara a crescer, que o despertara para o amor e que o apresentara a uma situação de ódio e vingança, cujas razões até então desconhecia. Ao contrário do que sucedia inicialmente, passou a respeitar a imagem fúnebre dos enormes contentores prestes a partir para Portugal. No seu interior, em cerca de dez metros cúbicos se aglomeravam os pertences de uma vida inteira de sacrifícios: a mesa da cozinha, os bancos, a geleira[14], o fogão, as mobílias do quarto do casal e dos filhos, se houvesse, as loiças e pouco mais. Todo este mobiliário se sujeitava a uma prévia inspecção feita pela Frelimo e o que fosse considerado de interesse nacional era simplesmente confiscado: metade de um faqueiro, parte de um serviço de jantar, o primeiro volume de um dicionário, o último de uma enciclopédia, roupas usadas, etc. Mas gentes de grande influência política e que vieram a conquistar lugares ainda de maior destaque no Portugal esquerdino, chegaram a despachar seis contentores sem serem sujeitos a uma única vistoria.
Pouco tempo depois da grande viagem efectuada a Vila de Manica, com os olhos inflamados de uma grande tristeza incontrolada, apanhou um avião, na companhia de Bebi, que fez a primeira escala em Dar-Es-Salam. Ainda o aparelho não descolara, já jorrava todas as lágrimas de saudade e revolta. De saudade, pois! Sentia que nunca mais regressaria ao berço de tanta dignidade, de tamanha beleza e de inesgotável amizade. De revolta, pelo constante crescimento da insegurança, de políticas importadas, da chegada de uma desconhecida e ambiciosa corrupção de esquerda que suplantou a envergonhada corrupção de direita e das perseguições de que os brancos eram vítimas.
Passaram uma noite num hotel em Roma com “Fernando”, dos Abba, a ser ouvido pela primeira vez através do rádio instalado na cabeceira da cama. Fizeram amor sem total entrega ao som dessa música nova, tão apreciada.
No dia doze de Julho chegavam definitivamente a Lisboa.
A recepção foi festiva e a apreensão em relação à pretensa gravidez de Bebi fora, simplesmente, esquecida depois de comprovada a sua inexistência.
O IARN[15] sugeriu que o casal fosse enviado para uma Residencial
- Coimbra?! A mãe em Lisboa, os irmãos em Lisboa e vocês encontram solução em Coimbra? - agarrando Bebi e Matchipisse pelas mãos - Vamos embora, se África não me meteu medo, não serão estes inúteis que me vergam na minha própria terra!
Que alívio sentiu! Sabia apenas que Coimbra ficava algures no centro de Portugal e que não tinha mar. Outros companheiros de viagem foram enviados para a Covilhã, outros para Vila Real e ainda alguns para S. Pedro do Sul. A grande maioria, sem família, chegava a este continente pela primeira vez e não tinha hipóteses de rejeitar a hospitalidade ‘oferecida’ no aeroporto. Apenas um, o Marçalo, com o seu metro e noventa, moldado com músculos salientes e raiva à flor da pele, quando o informaram que teria de ir para Guimarães, pegou na secretária apinhada de papéis e atirou-a para cima dos quatro funcionários que ditatorialmente iam entregando as centenas de guias com o destino aos milhares de refugiados que todos os dias chegavam. Marçalo já tinha a família a viver numa residencial em Cascais, era para lá que queria ir. E foi.
A viagem até à casa da barbearia foi feita num machimbombo[16] que tinha rés do chão e primeiro andar. A meio de trajecto, alguém se abeirou de Matchipisse e entregou-lhe, com um sorriso, a carteira que tinha caído do bolso traseiro com dois mil e quinhentos escudos que o IARN lhe tinha entregue no aeroporto, por ter optado residir em casa particular.
V
Quando, finalmente, viajava com o cunhado Alberto para a Figueira da Foz, onde este decidira montar o negócio, contemplava a diferença da paisagem que se lhe deparava. Em vez de florestas verdejantes, um corrupio de casas e mais casas; em vez de alegria pelos quilómetros percorridos, uma enorme agonia por cada um que o separava da harmonia familiar (conquistada com dificuldades). Ansiava apenas o reencontro com a irmã que já não via há muito. Mais velha apenas três anos, mas sequiosa na maturidade. O silêncio era aterrador como se algo estivesse para ser dito há muito e se esperasse apenas pela melhor oportunidade, que afinal acabou por chegar a cerca de meia-hora do destino:
- Matchipisse, já iniciei o negócio, mas há uma questão que vamos ter de pôr em pratos limpos.
O que teria Alberto em mente? Se ele até já tinha levantado o cheque que lhe entregara e que era a sua quota-parte para o negócio proposto... Curioso pelo quebrar do silêncio, pediu que continuasse.
- O dinheiro que me deste quando chegaste já está todo investido, mas tenho umas certas dúvidas quanto à sua origem. Não terá sido o produto das coisas que lá deixei e que tu vendeste?
Nem queria acreditar no que ouvia e recordou a viagem que fizera a Lourenço Marques, com o seu amigo Tom, para tentar reaver o que fosse possível da casa da irmã, que tencionava viajar para Portugal para se juntar ao marido. Não entendia. Alberto tinha abandonado tudo; só ao fim de alguns meses em Portugal decidira avisar a mulher que não regressaria e agora desconfiava de quem tentara ajudá-lo.
Por coincidência, o seu amigo Tom contactara-o numa determinada tarde a propor-lhe essa viagem que começaria bem cedo no dia seguinte. Ainda o sol se preparava para nascer resplandecente e pouco depois faziam a primeira paragem no Tica para beberem um café e atestarem o depósito de gasóleo; a passagem por Vila Machado; a alegria da inconstante miragem verde das florestas percorridas; as histórias inventadas para arranjarem combustível em locais inóspitos de ninguém; as refeições nas cantinas do mato, quando apareciam; o Xai-Xai a ser beijado por águas fluviais e Lourenço Marques, pouco depois, a abrir-lhes as portas a uma visão bela e surrealista de uma cidade europeia em crescimento no continente africano. No decorrer de mil e muitos quilómetros tinham sido vítimas de seis patrulhas da Frelimo que pretendiam descobrir o que os levava a uma viagem tão longa.
- Olha camarada, sou da mecanografia da companhia de seguros e levo aqueles milhares de cartões perfurados para a nossa sede, veja a minha identificação.
Enfrentando a realidade das parecenças do Tom com a fotografia do cartão, lá os deixavam passar.
Duma outra vez, mandaram parar para saber se havia alguma coisa para beber.
- Tomem lá vinte escudos e não se embebedem camaradas. Viva o alcoolismo abaixo a Frelimo - dizia Tom, entredentes, com o seu ar de superioridade.
Vinham-lhe todos os momentos daquela viagem memorável. Durante centenas de quilómetros tinha conduzido a viatura, ainda sem dispor da carta de condução. Os últimos trezentos quilómetros tinham sido feitos com os vidros laterais completamente fechados e com o vidro da frente estilhaçado por uma pedra. Surgiam-lhe recordações dos tempos passados na Rodésia enquanto lá estudavam. Raparigas que não os largavam. Fugirem de umas para saírem com outras.
Perscrutando as palavras do seu cunhado vieram-lhe então à mente, em lógica retrospectiva com o momento, os tempos mais aforísticos da sua juventude. Daquela vez em que fazia amor com quem gostara nesse dia quando uma das suas namoradas irrompeu pelo quarto a soletrar baixinho a canção some people are made of plastic, some people are made of wood. As frequentes idas ao clube das divorciadas, na maior parte das vezes acompanhados à saída por mulheres bem mais velhas, ansiosas por explorar momentos inesquecíveis nos braços de adolescentes. A visita semanal ao Bret’s, a discoteca da moda, até ao dia que, em pleno recinto de dança, foram corridos e perseguidos por rodesianos nacionalistas que descobriram que Matchipisse e Tom eram moçambicanos e que os seus governantes até tencionavam entregar a terra aos pretos...
Enquanto estas recordações lhe percorriam a mente, sentiu que estava a ser perseguido pelas garras bem mais experientes e exploradoras do seu cunhado que, no decorrer de uma viagem, se tinha transformado num insensível boneco de madeira ou até de plástico.
- Tens dúvidas que o dinheiro que te disponibilizei, com a intenção de construirmos a nossa independência, não seja meu? Achas que se por acaso eu tivesse alguma coisa tua, não ta devolveria?! Abandonaste tudo, inclusivamente a minha irmã, não quiseste saber de bens e agora estás a querer reaver o que ela me deu?!
Maria era hospedeira do ar e uma das escolhidas para os vôos de Samora Machel. Já não aguentava pactuar com tanta hipocrisia e decidira fugir. Aproveitando as férias que ia gozar na Europa, planeou sair de Moçambique apenas com a mala da roupa para não levantar suspeitas e nunca mais regressar. Perguntou a Matchipisse se não queria aproveitar alguma coisa da sua casa, pois sentia remorsos em deixar tudo à mercê de pessoas sem escrúpulos que logo que adivinhassem que não voltaria, violariam os seus pertences. Então Matchipisse trouxe o que achou que teria maior utilidade na casa que tencionava montar. Mas as suas intenções sairiam goradas. Não montou casa, teve que oferecer a maior parte das coisas e quase sem se aperceber, de um dia para o outro, chegou também a Lisboa, com meia mala de roupa, pois a outra metade tinha sido confiscada pela rusga habitual no aeroporto da Beira.
- Sim, Matchipisse, se não fossem esses bens que tu vendeste, terias algum dinheiro disponível?
- Alberto, eu tinha o meu emprego que me dava muito bem para viver e acredita, se quiseres, que a maior parte dos pertences da minha irmã foram oferecidos a pessoas amigas que lá ficaram... mas ainda não percebi bem qual o objectivo deste teu discurso ambíguo.
- Olha, meu cunhado, esquece a situação da sociedade. A partir de hoje eu sou o patrão e tu és o meu empregado!
Nem queria acreditar no que ouvia. Todos aqueles planos que fizera para ajudar a família que aos poucos se ia distanciando... A confiança cega que os seus pais e irmã tinham neste crápula... Naquele momento, estava longe de qualquer ombro amigo e sem um nicho onde se refugiar.
Não voltou a mencionar mais nenhuma palavra sobre dinheiro e durante um mês trabalhou em condições sub-humanas. Uma grande câmara frigorífica cheia de camarão era o seu arquivo; meio banco de madeira o escritório; as suas pernas o transporte para entrega de encomendas; colegas de trabalho as peixeiras que noutras câmaras acondicionavam o pescado para seguir para outros mercados.
- Ó Maneli, se tivesses um destes nã me queixava! -gritava a Rosa, fazendo rodopiar um grande peixe espada entre as suas pernas.
- Seu monte de esterco! Desculpe lá ó vezinho… setapanho setafodo! - respondia o Serafim.
E este era o ambiente diário do “vezinho” que ansiava todos os dias pela caminhada matinal da cigana que por ali passava e lhe dedicava o melhor dos sorrisos da rua das Peixeiras.
Era uma rapariga alta, morena, esbelta, com um andar gracioso e que deixava os cabelos negros soltos à mercê da brisa marítima que ali se fazia sentir no período da manhã. Trajava quase sempre um vestido negro, curto, que lhe abraçava o corpo enrugando-se nas formas mais ousadas dos seus ângulos. Era linda. Tinha os olhos castanhos e lábios carnudos de cor púrpura natural. Não usava sutiã, deixando a sensação de que os mamilos se debatiam com o ar ainda frio daquela rua que Matchipisse, matinalmente, começava a controlar. O seu sorriso era perfeito e cada vez que o endereçava mordia levemente o lábio inferior como se estivesse arrependida de o ofertar. Depois, ondulava os ombros, acelerava o passo e virava na rua a seguir. Todos os dias repetia o trajecto, o olhar, o ondular, o sorriso.
Um dia, quando se preparava para proceder a uma entrega urgente de marisco, Matchipisse aguardou pela sua cigana e sem ela se aperceber, seguiu-a. Com cerca de vinte quilos de camarão andou mais de meia hora a correr atrás dela, escondendo-se quando pressentia que o poderia descortinar, olhando para as montras quando surgia outra rua para atravessar, tapando a face com os sacos quando parecia que ela, inadvertidamente, se virava para trás.
A certa altura, à porta do cemitério, deixou de a ver. Entrou, pé ante pé, e por detrás de um jazigo encontrou a sua cigana sentada, a olhar carinhosamente para ele, pedindo com a mão delicada que se sentasse a seu lado.
- Matchipisse! Sim, sei o teu nome, não fosse eu cigana, não é? Olha, há mais de um mês que ali passo e tudo me diz que não pertences àquele meio. És educado, bonito...
- Como te chamas?...
- Não, por favor! Não digas nada, deixa-me dizer o que tenho aqui entupido. És diferente! Nunca me dirigiste um piropo como os demais. Olhas e não me despes, sorris sem malícia. És diferente e por isso deixei que me seguisses.
- Mas porquê aqui no cemitério?
- Aqui as testemunhas deste breve pecado são pouco eloquentes. Sou viúva, sabes, e de acordo com a minha tradição familiar tenho de visitar diariamente o meu marido que, por sinal, nunca me respeitou enquanto vivo. Só queria dizer que te adoro e que tenho pena de não te poder abraçar eternamente e de prorromper, porventura, o impossível lado positivo do meu destino. Mas ele está já definido e não vai poder ser modificado, percebes?
- Olha ciganita, se não me dizes o teu nome é assim que te vou tratar… tudo se precipitou e não sei o que dizer a não ser que estou deslumbrado por te ter à minha frente. Tu és real, quase magnificente, bela. E o que mais me surpreende é que o amor que mereces não está a ser absorvido pela tamanha beleza que me faz agora feliz.
- Não te percebo, mas não penses que não sou feliz. Acredito que tudo foi previamente escrito e que não é por acaso que aqui estou contigo. Sei que hoje nos vamos amar intensamente e que será a última vez. Sei que amanhã te vais embora para outra terra e para os braços de outra mulher. Tenho a certeza que nunca mais nos iremos cruzar e que continuarei a pensar que tudo isto não passou de um sonho. Sabes o que os da minha raça me fariam se adivinhassem que estava aqui? E o que aconteceria contigo?
- Nunca imaginei poder conversar contigo, acreditas? Sei que os ciganos são bastante violentos quando a honra lhes é tocada, mas será que nos fariam algum mal só por estarmos a conversar? Só tencionava saber porque é que passavas ali todos os dias e para onde te dirigias. Queria perceber como é possível, perante uma imagem nobre como a tua, esconder as ténues virtudes do meu passado e esquecer as colossais mágoas do presente.
- Olha, meu bem, sei que nasceste em África, que anseias pisar novamente a tua terra, que tens uma namorada que te adora e te protege, mas falta-te saber o resto...
- Ah… ciganita, ai o camarão que está a descongelar e tenho de o entregar em condições!
- Espera. Espera só mais um minuto - veloz, agarrou no braço de Matchipisse e revelou:
- Os traços da tua mão esquerda dizem-me que vais ter muitas paixões, uma única mulher, duas filhas e uma cigana que nunca mais te abandonará e que te protegerá na fragilidade perante o iníquo. Olha, meu amor de sonho... ou será de pesadelo? Hoje vai ser o último dia em que vais vaguear por caminhos que não te foram destinados e que, no entanto, ambicionavas. O teu cunhado vai arrepender-se de não te ter tratado como merecias; as más recordações serão amordaçadas para não mais sofreres; a tua vida vai conhecer novas realidades, umas amargas, outras bem mais doces... e eu serei apenas a ventania ou a brisa, se quiseres, que te apelou para prosseguires e que te guiará sempre a bom porto. Vai, vai entregar a tua encomenda e depois, quando o sol se puser, estarei à tua espera na praia defronte da casa das conchas, está bem?
VI
Seu pai era natural de Nampula. Nascera numa palhota. Depois das primeiras penetrações portuguesas naquela região, só em 1907 uma expedição da armada portuguesa invadiu e acampou na Senzala do Régulo Uampula. Por isso o nome de Nampula. Pouco anos depois, dava-se início à construção da linha-férrea do Lumbo, mesmo defronte da Ilha de Moçambique. E com o desenvolvimento a expandir-se, foi necessário precaver a revolta dos restantes régulos ali existentes que se debatiam contra o início da colecta de impostos. Não aceitavam que a “mucossa” fosse parar à mão de estrangeiros. Com a pacificação imposta, em meados dos anos vinte do século passado, a missão dos comandos portugueses foi extinta, tendo sido criadas circunscrições civis.
O avô paterno de Matchipisse, como militar, tinha ido para aquela região pouco depois do final da 1ª Grande Guerra. Ainda durante a comissão, não aguentou a separação da mulher que ainda se encontrava em Portugal e optou tê-la ao seu lado naquelas condições, em vez do sofrimento da distância que os trazia infelizes.
Viveram enamorados dentro de uma das palhotas do aquartelamento improvisado algures no mato, que um dia seria Nampula.
A senhora engravidou. Numa noite de Inverno tropical, ouvindo-se bem perto o rosnar de um leão, porventura incomodado pelas gargalhadas provocantes de uma quizumba (hiena) solitária, nasceu o filho daquele casal que não quis entender o significado de separação.
Criada a Circunscrição de Macuana, terminou a comissão de serviço daquele militar. Em vez de se juntar às centenas de companheiros que regressariam a Portugal, informou os seus superiores que nunca mais abandonaria a terra que lhe tinha dado o primeiro rebento. Como civil, fez pela vida e, tal como muitos outros colonos, foi desembocar também a Macequece.
Depois de estudar e crescer, o pai de Matchipisse tornou-se ferroviário e casou com Isa, a mais nova das irmãs adoptadas pela estrela parisiense que, por sua vez, também havia sido adoptada pelo mais recente paraíso descoberto em África. Sempre que a hierarquia dos Caminhos de Ferro decidia que fazia mais falta numa outra cidade ou vila, empacotavam-se as mobílias, encaixotava-se a criação de coelhos e galinhas, fazia-se uma festa de despedida e rapidamente se secavam as lágrimas saudosas dos amigos frescos que lá permaneciam. Amigos de pouca convivência mas que ficavam para o resto da vida. Que o diga o italiano que decidiu ser cúmplice do amor proibido de um amigo da mesma proveniência. Os encontros com a musa iam acontecendo longe dos olhares críticos da região primitiva onde viviam e a paixão crescia. Amigo de um amigo íntimo dos pais de Matchipisse, o italiano enamorado partilhava com o menino moçambicano o quarto que tinha duas camas. Primeiro aos fins-de-semana, durante meses depois. Mais tarde, ainda em casa de Matchipisse, assistia-se ao nascimento do filho, produto desse amor impossível. Por fim, os divórcios foram consumados e realizou-se o tão ansiado casamento em casa dos amigos moçambicanos. Novos amigos que ficaram para a eternidade. Através deles, outros amigos surgiriam no largo rol de dedicação. Em Moçambique a amizade era espontânea.
Muitos anos depois, saturado do colégio onde estava internado na Rodésia, Matchipisse decidiu fugir. Pedia boleia para percorrer os seiscentos quilómetros que o separavam do Índico, quando um carro parou. Correu ligeiro até o alcançar e preparando-se para entrar... Não é que deu de caras com esses amigos dos amigos do amigo italiano dos seus pais? Graças a eles, regressou sem hipóteses de fugir a um sermão que o levaria a aceitar, até ao fim, a disciplina militar daquele colégio.
Havia também a vizinha goesa que tinha um filho da mesma idade de Matchipisse e que se lembrou de alternar os bebés nas mamadas. O Zé sugava a mama rosada e Matchipisse envolvia-se numa escura, de leite branco como a neve. É claro que as indisposições nocturnas sucediam-se porque as mães desconheciam que a sua alimentação era transmitida aos filhos trocados. Zé bebia o fruto de refeições ocidentalizadas e Matchipisse contorcia-se com dores provocadas pelas comidas picantes de Goa. Existia, também, o Suargy que não largava a mulher nem quando ela estava menstruada. O grego Hércules que arrastava um vagão com os dentes. O caçador espanhol que assustava meio mundo quando retirava a prótese do braço esquerdo e, agarrando-a com a mão direita em riste, corria desenfreado atrás da pequenada.
Um dia, enquanto o pai se entretinha a jogar às cartas com colegas do clube de uma qualquer povoação onde tinha sido colocado, Matchipisse entendeu que necessitava de um espaço para recuperar de um dia cheio de energia libertada pelos seus três anos de idade. Procurou o VW do progenitor, ainda de vidro oval traseiro e deitou-se no cubículo por detrás do banco. Ao fim da tarde e pela noite dentro ninguém sabia dele. Enquanto os pais, mais umas centenas de amigos e conhecidos gritavam o seu nome e corriam por todo o lado, interrompendo a circulação rodoviária e ferroviária, telegrafando para as estações de comboios mais próximas e prometendo recompensas monetárias a quem o encontrasse, o pequeno dormitava serenamente embalado pelo motor traseiro do carocha. Só de madrugada, porque era tarde e a fome apertava, a mãe começou a ouvir uma voz de menino chamando por ela.
E foi assim que Matchipisse nasceu
Foi aí, também, que rasgou o significado do pecado sexual que lhe tinham ensinado ser mortal. Ainda adolescente, sem saber porquê, nem sequer como, viu-se, de repente, pela primeira vez, a fazer amor com a mulher de muitos dos seus sonhos.
Na Rodésia, enquanto não oferecia os resultados escolares que os pais ansiavam, consultava diariamente o calendário, riscando em cruz cada dia que se apagava. Com o amigo Tom buscava a inatingível serenidade dos frios seios de origem anglicista. Tentando, tantas vezes, fazer amor nos corpos que não eram o corpo do seu sonho distante, acabou por desistir e passou a praticar amores amorfos; amornados em vultos deleitados mas imóveis ao prazer de um amante amestrado pelos ares do Índico. E foi lá que, com o amigo Lamb, permitiu a ténue possibilidade de se juntar à caterva de combatentes da libertação do seu país. Liberdade que mais tarde viria a converter-se na libertinagem jamais vivida e convertida na mina mais produtiva de fortunas fortuitas de meia dúzia de dirigentes, indiferentes à angústia de um povo remetido para uma condição de vida abaixo do nível permitido de sobrevivência.
A revolução dos cravos foi saudada efusivamente por Matchipisse quando, após uns dias de férias, se dirigia de comboio para a Rodésia. Cantou, gritou, dançou, para espanto dos restantes passageiros de origem britânica. Na casa de banho, pôs a boina estrelada de Guevara e contemplou-se durante longos minutos, absorvendo nesse seu gesto toda a energia que o símbolo lhe vinha transmitindo há já algum tempo.
Um ano depois, o dia da independência foi levianamente festejado. Com a boina e sem medo de ser traído, deu vivas a tudo e a todos. Imaturo, nessa altura ainda não entendera porque os brancos, como ele ou até mais, se entretinham a construir enormes caixotes de dez metros cúbicos cada.
Sentiu a vida ameaçada por gentes que até costumava admirar. E um dia quando ia de mota para o aeroporto para apanhar uma boleia numa avioneta que o levasse a Lourenço Marques, quase o aniquilam. A patrulha mandou parar a mota, que só se imobilizou um metro depois do permitido. Lançaram Matchipisse ao chão e quase o perfuraram com uma baioneta pontiaguda ainda com rubros resquícios de uma anterior penetração. Segundos antes, John, sempre o santo John, que conduzia a motorizada, tinha cumprimentado o amigo governador que, por coincidência, se cruzara com eles. Se não fosse o governador Cangela de Mendonça regressar ao local por se ter apercebido que algo de errado se estava a passar, talvez Matchipisse e John não se safassem, nem chegassem a tempo de esperar pelo avião que trazia Bebi de volta, depois de alguns meses de permanência em Portugal.
Ainda se lembrava do momento da separação. Cansada de indecisões e ansiando segurança, Maleca decidiu, logo após a revolução dos cravos, endereçar as três filhas mais novas para lares familiares inabaláveis e escorados da "Metrópole". Depois, pouco antes da independência, entendeu que havia chegado a altura de partir com Bebi, para se juntarem às restantes. Só John e o pai permaneceriam em Moçambique enquanto o contrato de cooperação se mantivesse.
No dia
Durante o interregno da relação amorosa, quase se dissipava a estrela de tanta afeição; a distância era cúmplice do esquecimento, a preocupação a amante de pouca duração, os novos conhecimentos os casamentos de circunstância e as novas paixões os filhos bastardos nunca desejados. Até que Bebi, determinada, regressou para terminar o curso já iniciado e também para recuperar o amor e continuar a amar.
Foi nesse clima de ansiedade que a primeira etapa para o grande reencontro quase não era ultrapassado. Desenvencilhados da patrulha da Frelimo e depois de John ter arranjado lugar na avioneta-ambulância, sentiram novamente que o reencontro se daria porventura no paraíso de uma morte prematura. O piloto, veterano da guerra colonial, remetido para experiências frescas passadas durante a mesma, levava o avião a pique até quase se despenhar, enquanto bebericava uns goles de whisky velho de vinte anos. A poucos metros do solo, fazia o avião subir e grunhia os mesmos sons soluçados e desgastados que o motor do avião teimava
Quando o aparelho, ao fim de quase cinco horas de luta intempestiva com fantasmas, começou a deslizar aos saltos pela pista lisa do aeroporto de Lourenço Marques, ambos deixaram de transpirar e acreditaram que iriam, finalmente, abraçar Bebi.
Neste arquétipo de insegurança involuntária, de ansiedade por um futuro livre de perseguições intragáveis e de privilégios procrastinados no seu espaço, decidiu pensar no rutilar de uma nova esperança. Meditar na esperança de falar, amar, decidir e procriar em terra firme e segura.
A noite que passou com Bebi após meses de separação foi memorável. Ficaram em casa de uns familiares dela. Durante a noite forças estranhas impulsionaram Matchipisse a deslocar-se aos seus aposentos e aí amaram-se como há muito não se recordava.
Já no despertar do novo dia, acordou com a sensação estranha de que era necessário agir. Ainda não fugira, mas já sentia falta do ruído ritmado dos comboios que o embalavam em criança e do cheiro calmante do carvão queimado.
Recordava-se que quando viajava para a Rodésia, aproveitava a lentidão do ondular férreo do percurso para pensar no futuro. Sonhava com um Moçambique independente onde todos pudessem coabitar em harmonia, onde se nivelassem as oportunidades. Ansiava uma terra próspera e auto-suficiente e desejava onze filhos para a enriquecerem de simpatia e jovialidade. Só aos fins-de-semana se equipariam para o jogo de futebol. Queria terminar o curso de engenharia civil para se dedicar ao enriquecimento da terra. Eram tantos os sonhos que normalmente adormecia e, nesse estado, adormecia-os consigo. Em vez do curso, dedicava-se a provocar o nacionalismo branco de Salisbury, refugiava-se numa fazenda hippie de pseudo subsistência e de incauta clarividência, cantava os hinos de transcendência irracional, vivia ininterruptamente as oportunidades ilimitadas da adolescência e não entendia que devia parar e lutar pela realização dos sonhos.
Agora, enquanto amanhecia, só, regurgitava o sabor mágico de tanto orgasmo adiado, pressentia que a sua vida ia ser diferente, ia deixar de ser menino, deixaria de contar com a cama, comida e roupa lavada a troco de nada. Queria perceber a existência de novos e desconhecidos horizontes imunes, talvez, à tentação exterminadora de ódios raciais. Agarrando essa oportunidade pretendia, acima de tudo, chegar sem o sermão castrante do seu dia a dia: Não vás, não pises, tem cuidado, não saias da linha…
Apesar de alguém lhe ter dito que na terra do vinho seria admoestado a sobreviver se quisesse continuar a viver, decidiu libertar-se de estigmas para tentar encontrar a liberdade de poder escolher.
Com o regresso de Bebi à escuridão dos seus sonhos, a vida surgiu mais emoldurada, mas a luz dos seus receios mantinha-se frágil, quase abatida.
Depois. Depois tinham surgido aqueles primeiros entraves aos seus percursos predilectos: o da praia dos pinheiros, das reuniões de amigos, da viagem a Vila de Manica e tantos outros. A fuga dos seus amigos e familiares, a cidade plantada de caixotes, o olhar de insegurança de quem pretendia abandonar e o olhar de alívio empandilhado de quem não queria ir a lado nenhum.
VII
A despedida da cigana e o regresso a Lisboa coincidiram com a mudança da casa da barbearia para a das águas furtadas, na Travessa da Mónicas.
Maleca não tinha hipóteses para sustentar mais uma boca, mas agradeceu a sua vinda. Todos os que ainda não lhe eram nada, principalmente Bebi, receberam-no e envolveram-no com abraços apertados de uma saudade que durava um pouco mais de um mês. Período marcado pelo ruir de sonhos ansiados, controverso pelas expectativas não atingidas, mas recordado eternamente pelo ciganar intenso e prescrito no entardecer de um só dia.
A nova casa era antiga com muitas divisões minúsculas. Casa de bonecas, rendilhada e dedilhada com amor. A tonalidade das paredes, creme velho, lembrava a casa dos avós paternos,
O malabarismo, a magia e a música dessa época davam-lhe agora força e engenho para tentar iniciar qualquer coisa. Era o fascínio pela tentação de encontrar uma musa para poder trautear, acompanhado, os caminhos inóspitos do desconhecido.
O enorme descampado onde os circos se instalavam situava-se mesmo defronte da casa dos seus avós. Descortinava-se mais à frente um pequeno pinhal onde ficava o recinto das suas brincadeiras, um parque infantil com baloiços, escorregas e quedas. Era lá que se escondia atrás de um pinheiro a ver a Jú dos seus sonhos a escorregar e a saltar! Do outro lado da rua a imponente Catedral de Vila Pery abraçava todos os dias o colégio que albergava uma população estudantil diversificada.
Nas Mónicas, a área circundante da casa das bonecas era ocupada por outras casas (de bonecas também).
Uma casa de reclusão feminina, travessas empedradas do tamanho de picadas e o circo era a feira da ladra que se realizava às terças e aos sábados sem musicalidade festiva, mas com pregões que já o não faziam corar. Há sacos em napa podem escolher, aventais p'rá roupa, camisas p'ró piiiissoal!
A casa dos seus avós era enorme, tinha imensos quartos, uma cozinha com um fogão de lenha onde se confeccionavam os melhores pequenos almoços alguma vez sonhados e grelhados os bifes mais suculentos. Dispunha de uma varanda a toda a volta e de um jardim escrupulosamente arranjado com as mais variadas flores e árvores de fruto. Aquele casal de velhotes acolhia os filhos dos farmeiros que pretendiam estudar no único colégio existente naquela terra e o espaço transpirava juventude, numa disciplina militar e católica.
Todas as noites, Matchipisse, a irmã e a avó, prostravam-se de joelhos antes de se deitarem. Certa vez, enquanto rezavam a oração da noite, Matchipisse descuidou-se e ouviu-se um ruído. Confundindo sons inconfundíveis, a avó interrompeu a oração e bem alto interrogou:
- Disseste alguma coisa velhote?
Tantos anos decorridos e só tão tarde, na diferença do contexto espacial, se recordava de momentos que não podiam ser desejados mas que jamais poderiam ser esquecidos.
A disciplina, a indisciplina também, a amizade, a juventude e a religiosidade eram o paradigma da casa das águas furtadas. Um terceiro andar com três quartos minúsculos. Uma sala de jantar onde era preciso rastejar para se chegar a dois dos lugares sentados. Uma sala de estar, onde só se cabia no sofá, pois na outra extremidade tão baixa só havia espaço para um aparelho de TV a preto e branco, adquirido na casa de leilões da Avenida Casal Ribeiro. Uma cozinha minúscula que dava para uma despensa que servia de casa de banho. Como o ralo por onde a água do banho se libertava não tinha sido feito em forma de funil aligeirado, todo o seu utilizador tinha de proceder à posterior limpeza e secagem do chão da cozinha. Num dos quartos só cabia um beliche. Num outro, foi preciso serrar no topo as portas do guarda-fatos para se poderem abrir. No quarto de casal encaixou-se toda a mobília mas faltava espaço para se circular.
Na cozinha ouvia-se o ressonar da Maleca. Na sala de estar escutavam-se os barulhos evidentes de uma ida à casa de banho. Do corredor perscrutavam-se os lamentos de uma Afrodite perdida pela noite nos andares de baixo.
E foi nestas circunstâncias que ofereceram a Matchipisse um tecto, afecto e um prato de sopa acrescentado, à pressa, com uma caneca de água.
Desse tecto descortinava as mesmas estrelas cintilantes que costumava presenciar da varanda africana, enquanto a música do circo todas as noites se debatia por manter em suspense os espectadores da ilusão. Agora, perante a mesma luminosidade, continuava-se a cantar músicas de recordar com a total participação dos espectadores doridos por tanta desilusão. Mas, em vez da sonoridade festiva de um circo, ouvia-se o vizinho do andar de baixo a bater ininterruptamente com uma vassoura no tecto.
Sentia o amor de uma família que se entregava totalmente, à espera de nada.
E aquela sopa, por vezes aguada, ia preenchendo o lugar dos desejos de um caril de caranguejo.
Na primeira noite, foi surpreendido no beliche por um beijo de boas noites de Bebi. Tamanho carinho incentivou o ressurgimento daquela voz meiga e rouca a prognosticar toda esta mudança. Encontrara-se com a cigana já o sol se punha cansado de tanto afago de trago fugaz. A duna que os escondia dos olhos viventes foi indiferente ao abraço que os remeteu para um sonho nunca vivido e, logo de início, condenado a um esquecimento sofismável. Brincaram o jogo de amor tântrico até de madrugada enquanto não se esgotavam todos os poros escamoteados. Depois, com uma lua cheia a testemunhar o ocaso de mais nada, atingiram ambos um orgasmo sublime, acabando por adormecer nos braços um do outro. Não foi balbuciada qualquer palavra e todos os movimentos, toques e beijos eram simplesmente remetidos para um diálogo incongruente de satisfação, mudo pelo êxtase de sensações jamais sentidas. Quando o sol teimava em se apresentar novamente, Matchipisse acordou só, sem saber da sua cigana. Sentia apenas o perfume forte da sensualidade que ela deixara. Ao seu lado, letras de despedida desenhadas infantilmente na areia: amo-te, vai, estarei sempre contigo.
Naquele beijo de Bebi, viveu o mesmo perfume e, pela primeira vez em Portugal, sentiu-se eternamente protegido.
Agora percebia, não era por acaso que durante anos Bebi desabafara a sua incerteza quanto à descendência biológica; afirmava numa segurança quase plena que descendia de ciganos e que teria sido encontrada algures junto a uma linha férrea. Matchipisse tinha agora a convicção de que havia ligações místicas profundas entre essa história elucidária e a que vivera intensamente com a sua fúlvida cigana.
Ainda muito jovens e enquanto se deliciavam à procura de correntes frias no tórrido Índico da praia do Mira-Mar, olhou para o seu corpo esbelto, com os seios cobertos pelo longo cabelo escuro acobreado e perguntou-lhe:
- Ó Bebi, as tuas irmãs, o teu irmão e a tua mãe são tão claros e tu és tão morena, como é possível Bebi? Ao que ela respondeu:
- Só poderei sair ao meu pai, mas olha que desde muito miúda tenho a mania que sou cigana. Tenho um imenso respeito pela metafísica, sou atenta a todas as superstições e acredito que o meu destino está há muito traçado... contigo.
E não é que o brioso destino tinha agora sido, no dia anterior ao beijo de boas noites, predestinado por uma esbelta feirante e ladina amante?
Os dias nessa praia quentada do Mira-Mar eram edénicos. Sempre que o Vic aparecia, o Nel avançava rasteiro, escondido pela sua sombra, a tocar as músicas do Jethro Tull na sua inseparável flauta mágica. Aguardava-se assim pelo milagre diário do lento encontro solar com o horizonte azul, ouvindo-se os acordes melodiosos daquele instrumento harmonioso. O tabaco, colhido junto ao Pavilhão da Mocidade Portuguesa, era inspirado arduamente e mantido nos pulmões durante breves segundos. Vic olhava as ondas do mar, e tentando transformá-las numa imagem fixa e eterna, transferia ondulações sem nexo para o caderno diário do seu sub-consciente. As coca-colas refrescavam a sede e substituíam também os cremes bronzeadores, com um pequeno aditivo de óleo de coco. Depois da descolonização, face à escassez de produtos de consumo, este óleo era o único existente para fritar bens alimentícios.
E foi exactamente nessa altura que a cidade era invadida pelo cheiro pestilento do enjoativo óleo. Recordava-se, com saudade, os tempos em que se bebia uma cerveja graciosamente acompanhada por um pires a abarrotar de camarões fritos
Mas quando ouvia, ao longe, o matraquear de uma motorizada, nunca se enganava e lançava o seu berro anunciando às meninas a chegada de um ou de outro namorado: barabarabara… minino da minina Bebi; bararbarabara... minino da minina Tété.
Enquanto deambulava por recordações no piso inferior do beliche, Mimi no piso superior ressonava avidamente obrigando Matchipisse, já cansado de viajar, a acompanhar ritmicamente com a respiração, os urros descontrolados que se soltavam. Só assim conseguiu adormecer na primeira noite depois do prenúncio de uma nova vida vaticinado pela sua cigana: "Sei que hoje nos vamos amar intensamente e que será a última vez, sei que amanhã te vais embora para outra terra e para os braços de outra mulher e tenho a certeza que nunca mais nos iremos cruzar e que continuarei a pensar que tudo isto não passou de um sonho".
VIII
Foi um casamento harmonioso e elegante.
A nubente conheceu o primo quando chegou a Lisboa. Apaixonaram-se e casaram com a clara convicção de que os genes se manteriam fiéis e inalterados, cumprindo assim a tradição secular da família, em que todos os ascendentes eram também primos.
Ela era a filha do proprietário da casa
Fora a primeira grande festa a que assistia desde que Moçambique lá ficara. Como os pais do noivo eram abastados, fizeram questão de oferecer um imenso copo de água aos convidados. Entre tantos, lá estava Maleca, a respectiva criação e, obviamente, Matchipisse, que ansiava um casamento igual.
Foi a oportunidade de se voltar a comer iguarias julgadas extintas, foi o ambiente propício a um passo de dança e o local mal escolhido para não aceitar o assédio doentio a Bebi, metralhado por um convidado solitário. Em África, dizia-se que nada se comparava à robustez e à violência de um búfalo solitário. Nesta terra, onde também abundam predadores selvagens, esse demente solitário e beneplácito ao prazer da conquista de uma mulher que não pretendia sequer ser molestada, virou-se contra Matchipisse. Desferiu o ataque porque Matchipisse acompanhou a namorada para o recinto da dança e nunca mais a largou.
Sentindo-se confrontado com uma situação a que se julgava imune, o búfalo reagiu e avançou com os cornos torcidos de vergonha. Bebi refugiou-se e Matchipisse conseguiu rasteirá-lo ao mesmo tempo que os inúmeros convidados presentes, apercebendo-se da tara do touro, o afastaram definitivamente para fora da confraternização matrimonial.
Enquanto bebia mais um trago da cerveja aquecida pelo ambiente criado na investidura do louco bovídeo ruminante, fechou levemente os olhos e recordou-se de um cena de pugilato quase esquecida, em que tinha sido o derradeiro interveniente. Antes de ir estudar para a Rodésia passara cerca de um ano a tentar fazê-lo na África do Sul. Aí, foram tantas as peripécias e de tal calibre que os seus pais decidiram inscrevê-lo num colégio mais atento e disciplinado.
Eram cadeiras a esvoaçar, mesas partidas, copos e garrafas
Tudo havia começado quando os quatro entraram numa discoteca em Hillbrow[18], acompanhados de outras raparigas, para festejarem a ida de Matchipisse para a Rodésia. Pouco depois, surgiu um enorme rock spyder[19] que afagou os mamilos de uma das moças. O seu acompanhante, agarrando-lhe pelos pulsos, pediu-lhe para se portar com decência.
- Yes mate, be cool[20]! - respondeu.
Ainda não se tinham dispersado pelo clube, já o gorila se atirava novamente à presa escolhida. Houve nova interpelação e então assistiram-se aos sucessivos KO's dos amigos da rapariga dos seios bonitos. Quando chegou a vez de Matchipisse avançar, vacilou várias vezes mas envergonhado por ainda não ter agido, acabou por se entregar a um autêntico suicídio voluntário. Foi espancado, atirado de um lado para o outro como uma pena e não fosse o aparecimento repentino da polícia, de certeza, o gorila teria regurgitado nele toda a violência ainda por libertar. Os quatro foram conduzidos para o hospital para serem observados, cosidos e tratados ao passo que o animal, depois de identificado pelas autoridades, foi abandonado por forma a deambular pela noite à procura de mais alguns mamilos pontiagudos.
O que o descansava era a diferença hercúlea entre os agressores que então comparava. O rock spyder teria cerca de um metro e noventa de músculos bem salientes e o portuguese spyder talvez não atingisse um metro e setenta de uma franzina figura. Teria sido amor à primeira vista? Ou o álcool permitira a libertação de impulsos adormecidos? Ou seria por não pretender “refugiados” nos seus domínios? Tentou perceber mas nunca soube as verdadeiras razões da agressão.
O seu comportamento pacífico foi evidenciado por todos os presentes, tendo os pais dos noivos decidido, publicamente, pedir-lhe desculpas pelo sucedido. A festa continuou, as guloseimas reforçadas e a dança progrediu noite fora, com "Fernando" a tocar de vez em quando.
Uns meses depois Matchipisse casava-se. Pediu desculpas aos poucos presentes pela pobreza do himeneu. O próprio enlace remetia os poucos convidados a procurar atitudes fraternais e consoladoras para engrandecer a humildade do acontecimento.
A grande festa que registara na sua memória e que sonhara um dia plagiar, estava finalmente a decorrer na cave de um restaurante na Praça do Jardim Constantino, com trinta convidados, um bolo comprado na pastelaria mais em conta dos Anjos, um prato de carne e uns rissóis de essência de camarão com salada de alface já cozida pela espera. Mas houve alegria, emoção, saudade e até uma primeira noite de cinco estrelas no Hotel Sheraton. A madrinha de Bebi era também sua madrinha de baptismo e fez questão de oferecer à primeira noite daquele casamento um ambiente de luxo. Também ela havia já cedido a casa de bonecas da Travessa das Mónicas à mãe de Bebi. Matchipisse agradeceu a Deus por ter conhecido pessoas de valor incalculável na terra onde fora despejado.
O trajecto para o Registo Civil da Calçada do Cascão foi feito, num sábado, pela Feira da Ladra. Maleca ia à frente, como sempre, como um general a conduzir as tropas e a trautear o Zum-zum. Depois, o casal de noivos com Madú ao centro. A seguir, em fila indiana, John, as restantes irmãs e algumas pessoas mais chegadas que esperaram pelos noivos fora de casa, por não caberem dentro. Os que lá moravam já eram bem suficientes para andarem constantemente aos encontrões.
Os pais de Matchipisse e o pai de Bebi, ainda em África, não puderam estar presentes mas foram recordados com saudade. Os brindes foram imensos. Por cada história era evidenciada a necessidade de relembrar cada vez mais personagens reais e distantes. E por cada um se erguiam os copos, cada vez mais alto, tragando-se álcool como se de água se tratasse. Por isso, ou talvez por outras circunstâncias, Matchipisse foi envolvido por um estado febril nunca sentido e cumpriu um ritual de amor pouco convicto e de raras estrelas, naquela noite especial no hotel de muitas mais.
- Bebi, põe mais cinco escudos na ranhura para me relaxar.
Com a cama a tremer por mais de uma vez, sonharam e sentiram, como se ali estivesse, o comboio longínquo a carvão que os transportara já noutras viagens pré-nupciais bem mais consolidadas...
- Bebi, repete a dose, sinto a febre a descer.
E novo abalo se fazia sentir durante mais alguns minutos até que adormeceram depois de repetirem diversas vezes o fetiche sísmico da primeira noite oficial do resto daquelas vidas.
No dia seguinte, apanharam comboios e autocarros, numa viagem núpcial que rumava à região central do país, para que Matchipisse fosse apresentado aos familiares de Bebi. Ficou apenas memorável pelo inédito da finalidade. Todo o mundo esperava conhecer o marido africano e discutiam o seu grau de cultura, a cor da sua pele e a sua altura.
- Então o rapaz fala português tão bem como nós? -perguntavam familiares distantes de aldeias recônditas.
- Se é africano, como é que tem a pele tão branca como a nossa? - cismavam ainda - Imaginávamos que fosse pigmeu - confessavam outros, entre dentes.
Numa das visitas, já exausto de tanto interrogatório, recorreu ao estratagema de pedir perdão pela precipitada saída, havia ainda que percorrer cerca de três quilómetros a pé para poderem conhecer outros familiares. Para grande espanto dos dois, a pessoa que mais perguntas fazia propôs-se imediatamente a acompanhá-los, alegando que teria oportunidade de rever essa gente que há muito não via. - Foda-se... Bebi! - desabafou Matchipisse pela primeira vez a sua grande asneira pós-casamento, enquanto simulava um beijo suave na orelha da sua mulher.
Regressou a Lisboa convencido que ultrapassara as expectativas a que se tinha proposto e que a partir desse momento tentaria europeizar-se cada vez mais. As recordações de Moçambique passariam a ser só prescritas como tal.
Ainda ausente, o pai de Bebi aguardava infeliz pelo fim do contrato de cooperação.
Mais tarde, quando regressou, viciado por carências sensuais homogéneas, louco por uma nostalgia precipitosa, menosprezado pela mesma vida igualmente responsável por imensos poemas indigentes, enlouqueceu definitivamente. Num verão aterrador de brisas tórridas e iodadas, apaixonou-se descerimonioso por uma criança, implorando-lhe um conjúgio atoleimado. Não houve morte em Veneza mas empeçaram-se todos os sonhos de uma vida tranquila há muito ansiada por Maleca.
Madú teve de ser escondida do próprio pai, tal a alergia que lhe causava a sua presença. Talvez por ser uma criança de sexo diferente da eleita. Deprimida, rodeada de irmãos adultos que a sufocavam, refugiava-se defronte de amigas imaginárias e de espelhos conversadores em busca de personagens bem mais acolhedoras que lhe permitiam permanecer incólume a tanto desassossego. Vivia enclausurada num universo de fantasia e foi fabricando defesas para as agressões que este mundo lhe oferecia. Eram o baton e as unhas pintadas que a transformavam nas irmãs que ela idolatrava; os saltos altos e uma régua da escola que a referenciavam como a professora exigente mas que também sabia ouvir os desabafos da aluna sombra; a almofada na barriga transformava-a na mãe extremosa de cinco filhos, afagando com ternura a saliência que ela também sabia não ter sido desejada.
IX
Aproximou-se do gabinete do director e esperou que o chamassem para a entrevista que teria lugar daí a poucos minutos. Em catadupa percorreu algumas das experiências de emprego que já atravessara. Na senda da venda de mariscos com o cunhado, a desenhar a troco de uma refeição, na pintura de apartamentos e, por último, no armazém de pregos. Vinha-lhe à ideia uma manhã em que tinha carregado três toneladas de pregos numa camioneta. Enquanto o suor lhe escorria em bica, o motorista arrancava depois de ter dormitado ao volante do seu camião Volvo. Sentou-se durante uns breves minutos em cima de uns caixotes preparados para a entrega da tarde. Respirou fundo e olhou para a cópia da factura. Voltou a olhar, desta vez com mais atenção, não havia quaisquer dúvidas, tinha-se enganado na encomenda. Continuava a recuperar forças, ainda sentado nas caixas húmidas de suor, que afinal deviam ter seguido para Santarém. Imediatamente, saiu porta fora a correr ao encalço da camioneta, mas a sua marcha continuava imparável através da Avenida do Brasil e em direcção à Rotunda do Relógio.
- Minha nossa, que vou eu fazer agora? - pensava Matchipisse.
- O que vai ser deste emprego quando souberem que me enganei desta maneira? E onde é que fica Sacavém, meu Deus…
Esmolou ao taxista que alcançasse o Volvo de caixa aberta antes que chegasse ao seu destino. E conseguiu. Prometeu um almoço ao motorista do Volvo e regressaram ao armazém dos pregos para corrigir a encomenda.
Matchipisse descarregou tudo o que carregara, carregou tudo o que já devia ter sido carregado e ainda teve de alimentar o motorista que confortavelmente continuava a dormitar a sua sesta ao volante do enorme camião.
- É só mais uns minutos – informava a secretária do director. - O Senhor Doutor está a despachar uns processos, atende-o já.
Tinha sido um emprego que Maleca arranjara para o filho John, mas decidira dar a oportunidade a Matchipisse para ver se ele deixava de pensar em regressar à sua terra. Já há muito que ele se debatia com a angústia de querer vencer mas nunca conseguia encontrar a muleta que o fizesse caminhar ao encontro do objectivo. Sempre que expressava intenção de fugir deste continente, Bebi esbofeteava-o com o olhar e erguendo os punhos, com determinação, dizia-lhe “vamos vencer, não desistas”. Quando, ermo, pensava nessa fuga, era a cigana do seu inconsciente que o remetia para a realidade. “Ó meu amor, estou sempre a teu lado. Presta atenção às palavras da Bebi que através dela me soletro”. E dessa forma, foi adiando sempre os seus impulsos e aguardava agora pela entrevista. Segundo Maleca, seria contratado para exercer funções de elevadíssima responsabilidade; teria de lidar com a maior irresponsabilidade e imaturidade de alunos naturais das ex-colónias.
- Pode entrar senhor Matchipisse, o Senhor Director tem uma reunião daqui a cinco minutos mas vai despachá-lo num instante, está bem?
- Com certeza, minha senhora, serei tão breve quanto ele o desejar.
Assim arranjou o primeiro emprego de cariz definitivo. Mas antes, durante os poucos segundos em que olhou para a sua cara, foi ameaçado pelo director:
- Senhor Matchipisse, sei que estudou em países onde imperam regimes racistas e que nasceu em África. Ao mínimo problema com os jovens das ex-colónias, serei obrigado a dispensar a sua colaboração.
Esquecia-se, no entanto, que Matchipisse era também jovem, refugiado das ex-colónias e que tinha somente a pele mais branca do que os estudantes que teria de acompanhar.
Ainda faltavam quatro minutos para a próxima reunião do director, já Matchipisse se encontrava no exterior, sentindo-se preso à nova realidade e muito grato a Maleca.
Enquanto se esgueirava pelos caminhos que no futuro teria de percorrer diariamente, percebia como as dificuldades tinham começado há muito tempo, bem longe de Portugal, onde se criticava a boa vida dos colonizadores de África.
Bebi e os irmãos eram pequenos, já Maleca nas horas vagas fazia pelo sustento daquela família. O marido adoecera pela primeira vez em Moçambique e fora de emergência para Portugal, à procura de um especialista que detectasse o mal de que padecia.
As horas extra, depois das do emprego, não eram suficientes para poder alimentar as cinco bocas pequenas mas de grande alimento. O medo da fome levou Maleca a solicitar ajuda às irmãs da caridade do colégio que frequentavam:
- Irmã Superiora, conhece a minha situação. Viemos de Portugal em busca de um futuro risonho para os meus três filhos; hoje já são cinco e o meu marido adoece exactamente na altura em que eu mais precisava do seu apoio. Peço-lhe, encarecidamente, Madre, que os deixe continuar a estudar neste colégio a troco do que eu puder pagar. Tenho fé que esta situação se não prolongue por muito tempo e, logo que possamos, faremos os possíveis por regularizar as contas. - sem querer, Maleca deixava cair as lágrimas que não mostrava aos filhos.
- Ó minha senhora - retorquia a madre com a voz fria de um rosto longo e gélido - os meus superiores sempre me ensinaram a gerir esta casa com a cabeça e nunca com o coração.
Maleca saiu a correr tendo pensado, pela única vez na sua vida, em fugir de tudo e de todos em busca de uma paz permitida num qualquer éden ainda não conhecido. Passou junto ao rio Púngue e com o olhar abraçou a corrente vigorosa que se fazia sentir; depois, quase se entregou ao frio dos carris que tão bem conhecia; permitiu um breve cheiro de um aniquilador de ratazanas indesejáveis, mas por fim sentiu que contra estes ímpetos do desespero, preferia contemplar, diariamente, os olhares indefesos e alegres dos filhos que tanto queria.
A casa era grande. Arrumou, delicadamente, os filhos em dois cantos e começou a receber os hóspedes que lhe iriam trazer parte de uma tranquilidade monetária nunca suficiente.
A mãe de Matchipisse também se tinha cruzado com aquele meio religioso. Pelo infortúnio das negativas circunstâncias da vida e quando se encontrou arredada das carícias paternas, fora remetida para o melhor colégio de freiras na Beira, com apenas quatro anos. Tempos depois, a sua mãe deixou Macequece e para estar próxima das filhas foi viver para a Beira. Sempre que podia, abeirava-se da rede que a separava da filha Isa e fazia-lhe chegar alguns rebuçabos multicolores comprados na loja do chinês mais próxima.
As irmãs mais velhas também frequentavam aquele colégio, mas os mimos eram preferencialmente entregues à criança que se obstinava em evidenciar as carências afectivas a que estava sujeita.
Passados poucos dias, a mãe ausentava-se para sempre, conseguindo, na eternidade, o aconchego que esta vida lhe recusara ao lado do amor da sua vida. As pequenas mantiveram-se no colégio, na companhia das ínfimas recordações de poucas carícias parentais até então sentidas.
Na condição de orfãs e com o pagamento das mensalidades em atraso, Isa e as irmãs foram entregues aos cuidados degradantes do mesmo rol de freiras sem escrúpulos que as remeteram para a secção dos naturais de Moçambique, onde todas as crianças nessas circunstâncias eram tratadas como animais.
Aos domingos, quando se deslocavam para a missa da Catedral, os meninos pagantes iam à frente, todos arranjadinhos, calçados e perfumados. Dias antes, Isa e as irmãs faziam parte desse grupo.
Agora, vinham no grupo da retaguarda, separado do outro por umas dezenas de metros. Isa, com um vestido desfeito de velho, despenteada, a arrastar os pés descalços e feridos pela rua da Catedral. Atrás de si, uma freira atiçava, com uma pequena varinha, o dorso das bestas para se despacharem na caminhada. Jesus esperava por elas, incólume, na porta da igreja.
As lágrimas da criança iam deixando um rasto pela rua de terra batida e de vez em quando balbuciava as palavras mágicas que aprendera há tão pouco tempo: papá… mamã.
Nesse dia, apercebendo-se das injustiças a que estava a ser sujeita, a irmã mais velha de Isa abeirou-se da freira que insistia em picar o gado que dirigia, e quebrou a vara, não permitindo que a agressão continuasse. Passou uma semana fechada numa pequena despensa, a pão e água.
Aquele colégio antiquíssimo que se vangloriava de benevolente fora, ao longo de décadas, a tortura de crianças orfãs e de mães desesperadas.
Mas era nesse local que os pais abastados internavam as suas meninas para serem educadas exemplarmente... pelo menos enquanto pudessem pagar.
Isa adoeceu e foi levada para o sector dos naturais de Moçambique do Hospital do Macúti. Debilitada, aí ficou à mercê de uma morte pretendida, enquanto monstros negros (que também há) ansiavam o desflorar prematuro de um corpo branco e rosáceo.
Inesperadamente, aquela estrela que deixara de brilhar nos palcos franceses apareceu, cadente, levando-a nos seus braços para nunca mais a abandonar. Levou também as irmãs mais velhas e cumpria a promessa que o seu marido fizera ao pai das meninas. Cuidaria dos seus filhos se algum dia um azar acontecesse.
Isa cresceu sempre junto dessa e de muitas outras estrelas e fez-se a estrela mais bela de Macequece. Aprendeu a amar, a acarinhar, a perdoar. Aprendeu a brincar, a estudar, a cozinhar. Aprendeu a ensinar.
Aprendeu com a estrela, o supremo valor das decisões sem arrependimentos, a importância dos objectivos platónicos ansiados, a resignação perante as condições da vida. Soube amar bem um só amor na vida.
Maleca, pelo contrário, nascida em berço de oiro de uma família nobre, aprendeu muito tarde e à sua custa que amar não valia a pena. Arrependeu-se de decisões tomadas, do valor que objectivava em anseios platónicos, quase se rendeu às condições da vida e determinou que nunca mais amaria ninguém a não ser os cinco filhos que se debatiam por beijos inexistentes e o sexto que se entretinha ainda a pontapear a sua barriga pontiaguda. Era Madú a fazer sentir a sua revolta ao pressentir a revolta da progenitora.
Sentindo ainda o trepidar do eléctrico que corria através da Vinte e quatro de Julho em direcção ao Cais do Sodré, Matchipisse arrepiou-se quando se apercebeu que destinos tão distantes se tinham cruzado, extemporaneamente, naquele colégio que durante anos a sua mãe se recusara a passar pela frente. Esses destinos distantes tornaram-se cada vez mais próximos e a graça divina escondida num colégio de freiras diabólicas fora o argumento essencial para fundamentar o seu cepticismo em relação à Igreja no seu todo.
Em Lisboa, sentia-se sempre acompanhado pela Maleca e familiares. Em Moçambique, eram os seus pais que apoiavam o marido de Maleca até que regressasse definitivamente a Portugal.
Liam indistintamente as cartas remetidas com saudade. Condenaram efusivamente o abandono de Matchipisse ao projecto do cunhado Alberto. Festejaram em conjunto, na Beira, o casamento de Matchipisse e de Bebi em Lisboa.
Finalmente, sentiram-se orgulhosos pelo sucesso da entrevista que levara Matchipisse a abraçar o emprego que há muito almejara, de contínuo de uma escola de formação profissional para alunos cooperantes das ex-colónias.
X
- Hi Matchipisse, how is your pocket money for Friday?
A sexta-feira aproximava-se e os gastos teriam de ser contabilizados para se programar a folia habitual.
- Just enough for the Brets.
Era a discoteca das sextas à tarde onde se libertavam as energias camufladas de uma semana de estudo. Dançava-se continuamente e implorava-se que tocassem vezes sem conta Daddy was a rolling stone dos Carpenteers. Sentiam-se os peitos das jovens que esperavam ansiosamente que os rapazes se apercebessem dos declives
Confessava-se à rapariga menos esbelta que ela era a melhor, agradecia-se o beijo maravilhoso de alguém que nem sabia dá-lo, torneava-se com dedicação o corpo indelicado de quem tentava agradar.
E era assim que os jovens moçambicanos, Matchipisse, Tom e Fernando, ávidos de sensações e plenos do amor salubre do Índico, quebravam os corações das rodesianas.
Depois de se afagarem as breasts do Brets, jantava-se no lar dos jovens, marcava-se encontro para as vinte horas na residencial do Tom e trinta minutos depois já percorriam a cidade à procura de melhores e mais sensuais tentações, por forma a obviar o recalcamento do prazer que levaria, inevitavelmente, à neurose freudiana. Nessas noites, completava-se o princípio da realidade, quando interiorizavam as normas do grupo a que pertenciam e que se resumiam aos desejos da carne. Permitiam que o princípio do prazer que buscavam, nas suas formas mais primitivas ou mais avançadas, se transformasse no autêntico prazer possível da líbido. Evitavam a dor que repudiavam.
Era a dor de se saberem longe do oceano que oferecia vida, a dor criada pelo processo de socialização num espaço estranho, a ameaça externa que se idealizava pela imagem de um todo feminino e que revelava um certo estado de dependência da mesma. Estudavam durante a semana, fingiam concordar com o sistema político que abominavam, percorriam impacientemente os três meses que os separavam de umas férias em Moçambique e, nos fins de semana, revelavam o arremesso de sentimentos insensíveis na busca dos prazeres da carne.
O comportamento dos três jovens não deixava de ser, também, a confirmação e a continuação de um modelo construído inconscientemente pelas gerações anteriores. As inglesas tinham sido sempre consideradas a conquista fácil e nada os deteria a prová-lo.
- Vamos à universidade - propunha o Fernando, douto nos costumes - é lá que estão as bifas mais inteligentes.
- Nem penses! Hoje vamos às divorciadas, precisamos de assinar o ponto - sugeria o Tom, modelo fidedigno de um gentleman macho latino.
- Era só o que faltava! Vamos mas é à festa do clube português porque hoje já tivemos mamas que cheguem para o resto da semana - determinava Matchipisse, com o seu ar rafeiro mas de raça conseguida.
E lá iam ter com as três amigas sérias que os acompanhavam nas raras noites civilizadas.
Comeram chouriço assado, sorveram taças de caldo verde sem caldo, pelo exagero da broa minhota cortada aos pedaços. Dançaram, pularam, beberam! E quando a festa já quase terminava e as derradeiras doses de febras eram fervorosamente degustadas, a banda tocou uma marrabenta[21]. Matchipisse puxou rapidamente pela Isabel, o Tom agarrou na Kate e correram até ao recinto para dançarem os gestos das gentes daquela terra. Fernando ficara com a Jenny que, por ser rodesiana, não sentia a profundidade do chamamento dessa música.
Dançavam, com as pernas ludibriando as púbis das companheiras e os quadris ondulantes num frenesim sensual, estimulados pela musicalidade pura e erótica do Índico, quando apareceu de rompante o presidente da sociedade:
- Párem! Não quero mais destas músicas nesta sociedade - berrava de braços abertos - e só peço a estes intrusos que se rodopiam desta forma na presença dos meus e dos nossos filhos menores que se retirem imediatamente.
- Mas o senhor é louco? - perguntava Isabel, chocada.
- Por acaso sabe que esta é a dança tradicional da nossa terra?
- Fora, fora daqui! - gritava o homenzinho de bigode revirado para baixo, na sua estatura de pouco mais de um metro e sessenta.
- Vão e nunca mais voltem!
Entre dentes, Tom que ouvia incrédulo toda aquela saraivada de insultos, pediu aos amigos que saíssem sem retorquir nem pestanejar, pois já ninguém se lembraria de cobrar o excelente repasto da noite.
E assim foi. Cabisbaixos e simulando o arrependimento, abandonaram a correr o clube dos encantos da comunidade portuguesa. De seguida, foram para uma discoteca gastar o que não tinham despendido. Pela primeira vez Matchipisse partilhou a noite com Jenny, que entretanto avisara os pais que tinha sido convidada por uma colega para dormir em sua casa.
Pela centésima vez, Tom olhava de soslaio para a sua platónica Kate, à espera de um ansiado sinal para a poder abraçar como queria. Em vez do olhar cúmplice de uma paixão que se adivinhava, ela dava apenas a sua melhor gargalhada. Tom entendia-a como a risada inquieta de quem não se encontra preparado para amar. Mas já nessa altura a amava frivolamente como só ele sabia amar.
O avô de Kate, grego natural da Ilha de Milos, aventurara-se pelos oceanos em busca da sua Vénus perdida. Nos primórdios do séc. XX chegou à costa moçambicana, jurou que nesse lugar encontraria a sua Vénus e que seriam felizes nesse paraíso descoberto. Muitos anos depois, começava já a perder a esperança na musa e preparava-se para aceitar como normal a contemplação longínqua da mulher idealizada, quando conseguiu descobrir a grega dos seus sonhos. Tiveram dois filhos. Como era da tradição, os seus filhos casaram também com gregas, sendo Kate a neta de uma Vénus de Milos raptada ou foragida de uma ilha edénica no meio do Mediterrâneo.
Noutra ocasião, já o vinte e cinco de Abril de setenta e quatro despejava centenas de refugiados na Rodésia, Matchipisse e Tom encontravam-se sem qualquer dinheiro. A semanada tinha sido mal articulada e o Domingo surgia sem um dólar sequer para um hamburguer no Wimpy Bar.
- Ó Tom, e se fossemos ao Clube Português? Já se passaram mais de seis meses desde a cena da marrabenta e tenho a certeza que ninguém se lembrará de nós - afiançava Matchipisse.
- Parece que andamos sempre
Antes de entrarem no clube, desabotoaram as camisas, desgrenharam os cabelos, espalharam gotas de água que escorriam pela cara e que se ensopavam nas camisas previamente manchadas de terra. Impuseram um andar arrastado e dirigiram-se para o bar na expectativa de que alguém os não reconhecesse mas que se apercebessem da sua aparência sórdida e sofrida.
Assim foi. Pergunta atrás de pergunta, respostas já ensaiadas durante o percurso e foram completamente apaparicados por uma comunidade que chorava o sofrimento dos seus conterrâneos.
A troco de uma história de fuga, com elementos da Frelimo a perseguirem-nos até à fronteira, apenas a água desde há dois dias e ansiosos por uma refeição que os fizesse aguentar até segunda-feira, foram condignamente instalados numa mesa repleta de todas as iguarias sonhadas há muito. Enquanto comiam sofregamente, a fuga continuava a ser narrada e até o presidente da Associação que os tinha expulso há pouco mais de seis meses, ouvia extasiado os pormenores da aventura de dois corajosos jovens regressados do nada em busca de uma luso-refeição.
Ao voltar ao quarto onde vivia, Matchipisse encontrou debaixo da porta um bilhete manuscrito por Jenny a convidá-lo para jantar, no dia seguinte, em sua casa.
Ela era o reverso dos seus anseios, a antítese do que idolatrava. Mas era de uma meiguice felina, com um semblante a lembrar o da Ally Macgraw, a Julieta do Love Story contemporâneo. O seu sorriso, fazendo descair levemente o canto esquerdo do lábio inferior, permitia logo um abraço tão forte que fazia prever a natural reacção das longas e arranjadas unhas pelas costas de Matchipisse.
Não era magra nem morena, não era alta nem esbelta. Os seus seios eram rosáceos, roçados pelo cabelo aloirado que brilhava tanto de noite como de dia. De tez claríssima e convidativa, fora a mulher escolhida para, longe de Bebi, perceber, no dia a dia e na intimidade das suas carícias, as profundas diferenças das mulheres que pensava poder amar em simultâneo.
E amou-a como se a sua personalidade utilizada nesse fuso fosse una. No entanto, já avisara Jenny que junto ao Índico se encontrava a morena magra, alta e esbelta, de mamilos escuros, meiguice canina, unhas curtas e sorriso de gengiva… o semblante cigano que o esperava pacientemente cada três meses da sua vida.
Arranjou, desesperadamente, uma gravata florida mas Tom não o deixou sair assim e vestiu-o com o seu blazer de pele castanho e emprestou-lhe, também, uma gravata com tons iguais aos do casaco. Às 19 h00 estava na casa de Jenny.
- Hello Matchipisse, I didn’t expect you.
Durante o trajecto de quase três quilómetros percorridos a pé, pensou em surpreender a família de Jenny. Decorou frases shakespearianas, datas glorificantes do Duke de Wellington, atitudes nacionalistas de Ian Smith. Inventou até desculpas para o recente acordo de Lusaka.
Não te esperava, era o que ouvia somente. Entrou e rapidamente, sem se mencionar qualquer palavra, comeram qualquer coisa na cozinha ampla. Depois, dirigiram-se para o andar superior onde se encontrava a mãe de Jenny que o aguardava sem admitir.
- Sabes Matchipisse, a minha filha já me contou tudo sobre vocês e tenho pena de te dizer que não comungo dos gostos dela. Em primeiro lugar, pertences ao mar que me levou o marido. Odeio todos os momentos dessas malditas férias que passámos na Beira. Detesto o oceano, não queria relacionar-me com mais nada que me fizesse recordar todos esses maus momentos e apareces-me tu como o grande embaixador da minha eterna dor.
- But Madam, I’m…
- Não, deixa-me continuar. Em segundo lugar, não bastou ficarem-me com o marido e agora vão entregar a terra aos pretos. Por acaso tens consciência que esse acordo que tem como único objectivo entregar Moçambique a pessoas incapazes, nos vai também atingir daqui a algum tempo?
- Mommy please! Matchipisse is just my boyfriend, por favor não o confundas com o sistema.
- Espera minha filha, ainda não acabei. Ele não é o sistema, mas representa tudo o que eu abomino.
- May I be excused Madam? Não quero ir-me embora sem que antes lhe diga que não tive nenhum prazer
Os olhos de Jenny deixavam escapar as lágrimas que já abundavam antes da sua chegada.
A sua mãe soubera que a filha, certamente, dormia de quando em vez com Matchipisse e, engendrando-o co-responsável de uma morte e considerando-o como o paradigma de um sistema pretendido eterno mas agora em agonia, utilizou-o como pseudo colaborador e interveniente nas desgraças passadas e vindouras. Não o queria junto à filha.
O relacionamento com Jenny passou a ser cada vez mais terno e mais forte. Nos seus olhos havia somente a dor, e não a revolta, de uma morte por afogamento nas águas calmas da praia do Macúti.
Há muito que Jenny tinha pesadelos. Percebia apenas a imagem de um navio adormecido, envelhecido na posição estática para a qual o temporal o remetera, ficando de sentinela ao farol do Macuti. Fugia das sombras gigantescas que o sol desenhava no areal almofadado e tapava os ouvidos dos gritos estridentes e longínquos que o vento fazia soar, quando atravessava as fissuras enferrujadas do casco. Se não sonhava, imaginava o pai a debater-se com a corrente por não saber nadar, via-o sempre atrás de um enorme barco ferrugento a gritar e a sumir-se lentamente.
Cabia a Matchipisse aligeirar os enigmas do oceano e transmitir a serenidade das ondas que batiam naquele barco junto ao farol.
Era a mesma praia que albergava os visitantes rodesianos nas curtas férias do Rhodes & Founders[22] ou do easter holidays[23]. Era lá que os rapazes moçambicanos que não tinham hipóteses de aprender a falar inglês, se esforçavam por encontrar a rapariga que lhes ensinasse a dizer I love you ou give me a french kiss. Os rapazes davam o seu melhor para manterem a fama de machos latinos que tanto prezavam.
XI
- Consegui o emprego, minha gente! O doutor tinha apenas cinco minutos mas em menos de metade ficaram definidas as minhas funções.
À volta da mesa de pau-preto que apresentava já algumas manchas claras, seladas pelo sol forte do verão lisboeta que invadia as águas furtadas através de uma clarabóia centenária, encontrava-se Bebi e os irmãos John, Anny, Sky e Madú. Com a natural despreocupação da idade, Madú bebia, como sempre, todas as novidades diárias da geração que não era a dela.
Anny, sem necessitar de contar as histórias do papão que todos os meninos abominavam, ia conseguindo que a irmã benjamina fosse ingerindo a sopa de legumes.
Maleca, no emprego, lutava atribulada pela vida desassossegada dos jovens que tinham deixado de o ser.
- Que bom Matchipisse - retorquia Bebi - agora já se torna possível arranjarmos uma casa para nós.
- Mas vocês querem sair deste palácio? - perguntava John - Não se vão sentir desprotegidos por aí nessa selva desconhecida e prenhe de monstros misteriosos?
Depois de regressar a Portugal, John andava completamente alterado. Todas as dificuldades que conseguira ultrapassar em Moçambique eram constantemente recordadas
- Se mudarem de casa têm de prometer que nos manteremos sempre unidos. Não foi a união a nossa salvação? - rematava John.
- Meu cunhado amigo - respondia Matchipisse - a vida tem sido para nós uma enciclopédia, achas que te cortaria desses ensinamentos profundos, apenas por pretender o meu espaço e a nossa intimidade?
- Oh Bebi, tu vai embola daqui? Só deixo il se a casa nova tivel uma banheila, está bem Bibi? - perguntava Madú, enquanto mastigava a última colherada.
Com apenas cinco anos ainda não articulava bem os erres mas explicava-se como uma adulta.
Todos os dias, quando chegava ao infantário, as colegas faziam o relatório da manhã e a primeira situação diferente da sua amorfa realidade era o banho na banheira. A sua capacidade de retrospecção já não atingia a viagem constante que os irmãos diariamente faziam até à casa de banho que ficara na Beira. Era um autêntico quarto com uma enorme janela que dava para o jardim e onde se sentia o perfume forte de uma goiabeira carregada de frutos duas vezes por ano. Madú não se recordava. Pretendia apenas uma banheira igual à das colegas.
- Podes estar descansada Madú, quando arranjar a casa nova o primeiro banho será teu! - dizia-lhe Bebi, acenando afirmativamente com a cabeça enquanto lhe piscava os olhos com ternura.
Enquanto a pequena mastigava serenamente, Matchipisse lembrou-se da história do preto dos Cedros que se transformara no papão de todos os meninos da ilha do avô. Numa das suas deslocações à sua terra Natal, o avô de Matchipisse trouxera um preto enorme, forte, pés desmesurados, dentes brancos como a neve e pele negra como a noite mais fria de Inverno. Os pais que queriam disciplinar os seus filhos e que ansiavam ver os seus pratos vazios num ápice, utilizavam a figura aterradora do único preto existente na ilha. Se não comes, vou chamar o preto dos Cedros. Se não estudas, o preto dos Cedros vai aqui estar a tarde toda. Se não dormes, é o preto dos Cedros que te vem fazer companhia. E era neste clima que os meninos iam cumprindo as tarefas que mais detestavam.
Entretanto, o criado pediu para permanecer naquela ilha até à próxima visita do patrão que poderia levar anos. O patrão regressou a Moçambique onde acabaria por se suicidar pouco depois. Deixou uma amante na ilha. O preto dos Cedros apaixonou-se intensamente pela viúva e assumiu o lugar do falecido patrão que tinha deixado grandes propriedades. A viúva ansiava tornar-se dona daquele imenso império, pois não havia conhecimento de herdeiros nascidos
Na mesa de pau-preto reuniam-se em volta de Madú, faziam-se as contas diárias e percebiam que o remanescente não dava para o dia seguinte.
A Alice da Leitaria incitava a levar sem pagar:
- Eu sei que vocês são sérios. Levem o que precisarem e paguem quando puderem.
Até as batatas, o bacalhau e o leite que de quando em vez eram racionados, a Alice guardava para os bons retornados das Áfricas.
- Ó dona Alice, mas olhe que este mês vai ser muito difícil fazer contas consigo, até tenho vergonha de o dizer - segredava cabisbaixa Maleca.
- Já lhe disse minha senhora, só vai pagar quando puder e vem cá sempre que necessitar, percebe?
Maleca saía carregada de sacos sem hipóteses de limpar as lágrimas que iam correndo pela face marcada pelo desespero da necessidade.
A mesa onde conversavam, era a mesma onde se brincava com os espíritos. Chamavam por eles para testemunharem alguma decisão controversa ou para proporem algum passo mais profícuo num projecto pensado. As palavras eram coleccionadas através do cálice de cristal virado que voava pelo alfabeto disposto
Por isso, encarava com todo o respeito o acto de apoiar levemente o indicador direito na base de qualquer cálice virado.
Numa outra vez, junto à clarabóia lisboeta que fazia entrar a claridade intensa de uma lua cheia que também aquecia, e enquanto faziam as normais tentativas de estabelecer um contacto para impressionar a visitante que há muito não viam, eis que aparece um espírito que se identifica como Tony. Referiu todos os pontos erógenos da rapariga que lá estava. Perguntou-lhe se teria gostado das posições ousadas da última vez; que sentia saudades dos três sinais que tinha junto à púbis e um rol de tantas outras informações que ruborizaram a amiga que os visitava. De imediato, a amiga levantou-se e saiu. Havia outros compromissos a tratar, explicou. Alguns meses mais tarde soube-se que Tony era o nome de uma mulher, a sua companheira que a pusera vermelha pelas indiscrições de um simples cálice de cristal.
Manteve-se o emprego. Manteve-se a coragem para rir das inúmeras piadas que a vida, entretanto, ia oferecendo.
Os dias rivalizavam com a angústia de se viver apenas memórias. Levavam muito tempo a passar.
A linha do comboio, mesmo defronte do trabalho de Matchipisse, lançava-lhe todos os dias um chamamento quase divino. Os carris que supostamente quase se juntavam no infinito transmitiam-lhe a inexactidão do rumo que a vida o obrigava a seguir.
- Duas linhas paralelas nunca se encontram - pensava - porque hei-de eu ouvir as vozes do desespero se as vozes da esperança são ainda mais fortes? Os carris são dois e simbolizam o desencontro. Atravessá-los é perceber que do outro lado existe mais qualquer coisa. Existe, pelo menos, uma barreira transposta.
Superar barreiras era a grande vitória de alguém que há poucos meses nem sabia onde ficava Sacavém.
De manhã, parava, escutava e olhava antes de atravessar o obstáculo que, melodicamente, o convidava a desistir. À tarde, a aventura repetia-se.
Diariamente, as suas funções cingiam-se a acordar os alunos que estavam em regime de internato, obrigá-los a tomar o duche matinal, verificar se as camaratas ficavam melhor que desarrumadas e acompanhá-los ao refeitório para o mata-bicho.
Este regime era uma revolução cultural na mentalidade de jovens que chegavam quase descalços das ex-colónias. A política vigente acreditava que a cooperação com os países de língua oficial portuguesa tinha de ser desenvolvida mesmo que os formandos não soubessem destrinçar a diferença entre escrever e desenhar. Havia muitos com características para cursar o ensino superior que se debatiam por aprender a fazer o nó lais de guia. A maioria, porventura, tirada dos cantos de qualquer picada do mato africano, passava as melhores férias das suas vidas, vestidos e calçados. Havia alguns ainda, que desferiam olhares enfeitiçados pela morte.
Enquanto decorriam as aulas, Matchipisse aguardava, serenamente sentado na secretária instalada no topo norte do longo corredor, que qualquer professor se lembrasse dos seus préstimos. Ficou admirado quando, pela primeira vez, o professor de português se dirigiu a ele:
- Senhor contínuo, veja lá se consegue perceber o que este rapaz pretende. Os colegas só se riem e eu fico sem saber o que fazer. Cada vez que tento recomeçar a aula, o diabo do moço só diz madze, madze.
- Senhor professor, deixe-o sair que ele quer beber água.
A partir dessa altura, os alunos ex-colonizados perceberam que o contínuo era um ex-colonizador, e foi numa das ausências de um professor que se deu a revolução do capim. Tal como ficara definido em reunião do conselho directivo, sempre que houvesse uma falta de um docente, Matchipisse teria de manter os alunos na aula. Nesse dia, os alunos mais velhos insultaram-no, vexaram-no na presença dos mais jovens, atribuíram-lhe as culpas pela fome que grassava nos seus países. O líder levantou-se de punhos cerrados e provocou ainda mais Matchipisse:
- Anda, reaccionário dos merda, lá os da tua cor davam porrada na gente, dá-me agora também!
- Pelo amor de Deus, sabem que fugi da minha terra porque havia lá muita gente como tu. Gente que transmitia ódio, que oferecia ódio, que bebia e regurgitava ódio. Uma vez mais vos suplico que alterem essa vossa maneira de ser e aceitem as oportunidades que este país já me deu e que vos quer dar também. Chega de ressentimentos.
- Ó camarada descamaradizado, você é que devia pedir desculpas aqui para todos nós. Lá eu lhe enviava para o grupo dinamizador e você só saía depois dos rependimentos ou então ia para os reducação.
Matchipisse, nessa altura, recordou outro dos muitos acontecimentos que o levou a abandonar a sua terra. Quando estava com Bebi e uns amigos numa discoteca da Beira, surgiu repentinamente uma rusga da Frelimo. Homens prali, putas pralá! E revistaram todos os jovens que se entretinham a ouvir um pouco de música. Os que tinham documentação, quase todos, ficaram despojados dos parcos escudos que guardavam para uns copos. Os que se tinham esquecido dos cartões, cerca de quatro raparigas e dois rapazes, foram enviados para o campo de reeducação da Gorongoza. Só cerca de um mês depois foram despejados em casa dos seus familiares. Elas vinham irreconhecíveis, com uma capulana à cintura e de peitos ao léu queimados pelo sol abrasador. Eles traziam os olhares apáticos à espera de mais sevícias.
- Meu filho de uma grande puta, toma esta pelo sofrimento que me causarias se lá estivesse, e mais esta por todos os meus amigos que foram reeducados e mais esta - Matchipisse desferiu certeiramente os golpes que há muito John perdia no vazio e vingou-se de todas as situações de espezinhamento a que fora sujeito.
Por incrível que pareça, ao contrário da opinião do Director que entendia que Matchipisse deveria pedir desculpas à turma pelo acontecido e depois despedido daquele emprego, a grande maioria dos rapazes das ex-colónias exigiu que Matchipisse continuasse a ser o seu monitor. A partir desse dia, tendo vencido o líder, passou a ser o chefe de um grupo de pretos numa terra de brancos.
A casa entretanto conseguida tinha a casa de banho que Madú tanto almejava e o primeiro banho fora dela.
Era uma casa com três quartos, dois sem janelas, uma sala comum, uma cozinha e um quarto de banho enorme. Para lá estarem, tiveram de desembolsar cinquenta contos pela chave, a pedido de uma regressada de Angola, prenhe de solidariedade circunstancial. A senhora teria arranjado uma casa melhor noutra localidade, mas para ceder a que já não necessitava, exigia aquela importância. Contaram-se as quinhentas todas, pediram o que faltava e lá foram morar para o bairro das Galinheiras, que até era muito sossegadinho, insistia a “amiga” retornada.
Todos os fins-de-semana, lá ia Madú com Maleca, para desfrutar do banho de imersão tão ansiado durante a semana.
Às segundas-feiras, quando se dirigia para o infantário, Madú já não chorava. Ia ansiosa por ser a primeira a relatar as brincadeiras de higiene numa banheira que até dava para nadar.
XI
- Meu Deus! Roubaram-nos o carro - Matchipisse subiu a correr as escadas que o separavam do seu aconchego.
- Bebi! O carro não está lá
Era um automóvel antigo que o seu tio lhe tinha oferecido. Recusara-se a conduzir no pandemónio da cidade e, por isso, oferecera-o ao sobrinho.
Com o volante do lado direito, identificava logo a origem do mesmo, tornando-se assim o destino fácil e preferido de um insulto e de buzinadelas premeditadas.
Desde que a filha nascera tornara-se o transporte útil para a constante fuga das viroses, dos encontrões e das más educações, características vigentes do número dezassete da carris. O combustível era meticulosamente metido às sextas-feiras até que o ponteiro paralisasse no primeiro quarto de tanque. Deixava a mangueira mantida na vertical até cair a última gota.
Nesse sábado, a zona envolvente foi vasculhada
O domingo foi igual.
No dia seguinte, Matchipisse não conseguiu enfrentar o desgosto e faltou ao trabalho para continuar, inutilmente, à procura do seu machimbombo privado.
Quando entrou cabisbaixo na mercearia da esquina para comprar três fatias de fiambre para as sandes que iria preparar para o almoço, ouviu a voz rouca e alcoolizada do senhor Efigénio:
- Então vizinho! Parece-me triste hoje! O que se passa?
- Nem vai acreditar. Imagine que anteontem saí de casa artilhado para lavar o carro e só encontrei o lugar! Hoje nem fui trabalhar - explicou Matchipisse, sem levantar os olhos do chão.
- O quê? - o dono da mercearia abriu os olhos de espanto - Aqui nas Galinheiras? A um residente? Mas o vizinho tinha carro?
- É verdade! Nunca pensei que me viesse a acontecer. Ouvimos tantas histórias, mas nunca imaginamos que somos potenciais candidatos ao sofrimento, percebe? Olhe, senhor Efigénio, tenho apenas vinte e três anos e em tão pouco tempo já perdi tanta coisa, acredita? Foi a terra, os amigos, o bem estar, a juventude e... e agora até o carro me levaram...
- Mas explique-me, vizinho, era um carro de retornados que ali estava estacionado junto ao seu prédio?
- Esse mesmo. Era um carro de um retornado, que por acaso não era, mas isso agora não interessa. O meu tio é que mo ofereceu e tem sido o nosso transporte desde que a criança nasceu - não conseguiu evitar que os olhos se enchessem de lágrimas.
- Ó vizinho, tenha calma homem. Juro-lhe pelo meu pai, que Deus o tenha em descanso, o mais tardar amanhã, o seu carro aparece. Não me chame eu, o Efigénio das Galinheiras!
Na terça-feira Matchipisse recebeu um telefonema da GNR de Sacavém, informando-o que o automóvel tinha aparecido abandonado na via pública.
Mais tarde, já nem residia naquele bairro, quando leu num jornal diário que tinha sido preso Efigénio das Galinheiras, o cabecilha de um gang especializado no roubo de automóveis mais antigos, que eram desmanchados para posterior venda de peças nos sucateiros.
O carro continuou a percorrer os quilómetros que lhe pediam e possibilitou também alguns negócios que ajudavam a complementar os vencimentos que só chegavam até meados de todos os meses. Transportava pincéis, rolos e tintas que embelezavam as casas pintadas aos fins-de-semana; levava conhecidos aos seus destinos, a troco de combustível para circular até ao fim do mês; por fim, transformou-se numa peixaria ambulante. Todas as sextas à noite, Matchipisse e John abeiravam-se da doca onde era descarregado o peixe capturado pelos barcos de arrasto e negociavam a teca com os pescadores interessados, a troco de garrafas de whisky de origem duvidosa.
Depois, com carregamentos de quarenta ou mais quilos, corriam as tascas de Lisboa à procura de compradores para o peixe fresco que a maior parte desses estabelecimentos nunca tinha visto. Numa das vendas, o dono da tasca virou-se para John e perguntou se tinha tubaros.
- Tubaros? - questionou Matchipisse - Só temos peixe delicado, mas olhe... parecido com tubarão só pataroxa. É esse que o senhor quer?
- Ó meus amigos! Mas de que planeta são vocês? A nossa especialidade são tubaros de carneiro. Colhões! Entenderam?
Saíram da taberna às gargalhadas e Matchipisse lembrou-se do safari em que há uns anos tinha participado com o seu tio caçador-guia. Enquanto seguiam para o próximo cliente, foi contando a John como tinham percorrido picadas, pântanos, tandos e planícies em busca dos troféus que o turista milionário, um conde espanhol, queria coleccionar. Nunca tinha assistido a tamanha mortandade apenas com o objectivo de posar ao lado da presa. Numa manhã, o conde, porventura cheio de apetite, pôs-lhe a arma na mão. Apontando para uma gazela esguia e elegante que se encontrava a pastar a uns metros, pediu a Matchipisse para lhe conseguir uns bifes para o almoço. Simulando ligeireza na posição de tiro, fingiu espirrar exactamente na altura em que disparou a arma.
- Desculpe, meteu-se um insecto no meu nariz mesmo na altura em que pressionei o gatilho. Há coisas!
O conde ficou triste por ter perdido aquela peça mas logo pediu ao tio de Matchipisse que fossem ao encalço de uma gondonga, era essa a carne que mais apreciava. Tinha de ser um macho, exigia o turista. E lá encontraram um antílope enorme a comer, calmamente, as folhagens verdes, rasteiras, de um arbusto a pouco mais de setenta metros. Desta vez, o conde fez questão em atirar e não falhou. Rapidamente se montou um acampamento na área e enquanto o pessoal tratava de esfolar o bicho, os caçadores da intranquilidade foram ainda matar umas quantas galinhas do mato para as levarem, no dia seguinte, para o acampamento principal que ficava próximo de Macossa, num planalto junto ao Monte M’Panda.
O almoço foi soberbo. Matchipisse tentou esquecer-se da origem dos bifes esplendorosos, acompanhados de batatas fritas aos cubos regadas com um molho de cogumelos espesso. Quando já deglutiam umas quantas papaias de sobremesa, o Conde virou-se para Matchipisse:
- Então miúdo, gostaste dos bifes? Eram mesmo tenrinhos.
- Se eram, conde - sorrindo - foi pena o cozinheiro não ter preparado mais alguns, ainda marchavam mais.
- Pois é Matchipisse, da próxima vez temos de encontrar uma gondonga maior. Sabes que os colhones são proporcionais à altura, não é?
- O quê, conde?! É verdade, tio? - franzindo a testa, evidenciou uma má disposição súbita. - É mesmo verdade que acabámos de comer testículos de gondonga?
- É! - responderam em uníssono, deixando libertar enormes gargalhadas que ecoaram através da selva que os circundava. Durante a tarde dormiram a sesta, pois o conde queria caçar um leão logo depois do sol se pôr.
- E sabes o que é que os gajos fizeram para atrair o leão, John? Utilizaram as tripas da gondonga e a uns dois quilómetros do acampamento começaram a arrastá-las, amarradas ao jeep, dentro de um saco de serapilheira. E andámos, já noite serrada, durante umas centenas de metros até que imobilizaram o veículo, tapando-o quase completamente com a folhagem circundante. A cerca de dez metros depositaram o pestilento engodo, ficando a armadilha completa. Ficámos todos calados dentro daquele esconderijo, enquanto o pisteiro conhecedor de todos os segredos daquela selva espectacular começou a imitar o rugido de um leão. Usava um funil com cerca de meio metro, tocava para dentro de um barril com água que funcionava exactamente como um amplificador sem se ter a percepção de que havia sons metálicos. Era como se estivesses com um leão ao teu lado, arrepiante. Duas horas já tinham passado quando o pisteiro, através de gestos, aconselhou total silêncio. Pouco depois, apareceu um enorme leão de juba negra que o conde não teve qualquer dificuldade em atingir por estar a escassos metros daquele autêntico rei da selva.
- Coitado do bicho, Matchipisse. Nem sequer teve tempo de saber ao que ia. - John, impressionado, expulsava o seu primeiro desabafo de repulsa.
Enquanto levavam o peixe para a próxima tasca, os dois ainda riam com o pedido formulado no último restaurante.
- Porra, Matchipisse, se o gajo nos tivesse dito logo como te explicou o conde, não teria havido aquele equívoco. Colhones, não é?! - gargalhava John.
Parte do peixe ficava reservado para o consumo da semana que ainda estava para chegar: galo, ruivos, fanecas, tamboril, pescada, linguados. Nunca tinham visto alimento de tão boa qualidade desde a vinda de Moçambique. Lá (agora quase nem acreditavam), comprava-se camarão no Bazar do Maquinino para servir de isco ao peixe que tentavam pescar, unicamente para passar o tempo. Marora, bagre, garoupa, corvina, raia.
Ia para a Praia dos Pinheiros e esperava que a linha acusasse o esticão. Recordou um indiano raquítico que ali também pescava. Parecia que ainda o via a lutar com um ser que na outra extremidade da linha se debatia pela liberdade. Cinco passos para a retaguarda, outros cinco em direcção à praia. Enrolou-se pela cintura e com o corpo tentava obrigar o gigante, que se defendia da morte, a entregar-se cada vez mais ao digladeio. Ao ver que o seu companheiro das horas solitárias quase desfalecia, Matchipisse entregou-se também à luta. Só meia-hora depois conseguiram, exaustos, trazer a raia fatigada que pesaria cerca de quinze quilos. A sua face efeminada, com olhos ternos, quase sorridentes, levaram-nos a devolvê-la, qual sereia do mar, à água da sua vida. A partir desse dia, Matchipisse nunca mais conseguiu enfrentar uma raia. E era esse o único peixe, sem cara de peixe, que John tinha de negociar sozinho.
Os meses em Portugal foram voando. Novos anos. Outros empregos. A vida, aos poucos, ia melhorando.
Entretanto, os seus pais, depois da cruzada em busca de um futuro tranquilo, já se tinham fixado de vez em Lisboa.
O pai decidira ajudar o genro Alberto nos negócios, porque achava necessário uma mão gestora. Por outro lado, entendia que a filha Maria, talvez encontrasse uma certa estabilidade emocional se o marido alcançasse a sua segurança económica.
E o peixe passou a preencher também a vida de pessoas que o apreciavam somente à mesa.
Alberto pensava em fazer o negócio da sua vida. Alugou um camião-frigorífico TIR, encheu-o de marisco e de peixe fresco dos Açores e rumou direcção à Alemanha. Atrás, ficara a certeza de que regressaria com verba suficiente para liquidar as dívidas que se iam avolumando.
Mas o regresso nunca aconteceu. As dívidas ficaram. Foram transferidas por determinação judicial para a esposa. Maria passou a contar apenas com metade do vencimento para sustentar a casa e um filho, mas libertara-se, pelo menos, das amarras de um vagabundo que vivia na sombra do trabalho árduo de amigos moçambicanos que vigarizava. O sogro de Alberto finalmente percebia e desculpava a atitude inesperada do seu filho Matchipisse quando, há uns anos, decidira abandonar o cunhado.
Matchipisse sabia que as vigarices continuariam noutros lugares. Em novos países. Em longínquos continentes. A coberto de uma ambição desmedida, Alberto conseguia granjear simpatias para, logo depois, despojar as suas vítimas do bem absoluto que ele mais adorava. Dinheiro.
XII
Matchipisse fora promovido a trabalhador administrativo. Já não lidava com os alunos. Ia absorvendo os ensinamentos do chefe Carvalho que teimava em designá-lo como o seu continuador. Mas era alvo da chacota de colegas que não entendiam como um simples contínuo poderia ser candidato a um lugar de maior responsabilidade. Sabia que tinha de procurar outro emprego e tempos depois mudou-se para uma empresa portuária.
Alguns anos volvidos foi nomeado chefe de departamento, provocando nova revolta de dezenas de trabalhadores que fizeram circular um abaixo assinado:
“Os trabalhadores desta empresa com anos de experiência e estando em condições de ser os justos candidatos à chefia do departamento em questão, por se encontrarem no topo da carreira, solicitam ao Conselho de Administração vigente que considere sem efeito a recente nomeação do Senhor Matchipisse. De referir que o nomeado, retornado de Moçambique, há uma dúzia de anos residente neste país e com escassa experiência no sector marítimo, não se encontra no topo da carreira administrativa, devendo ser impugnada, de imediato, a sua nomeação.”
Alguém lhe tinha dado uma cópia. Muitos colegas foram ter com ele e pediram que não desistisse. Matchipisse jurou que dessa vez não ia desistir e nos dias seguintes passou a enfrentar um clima pouco convidativo ao desenvolvimento das responsabilidades atribuídas.
Foram períodos de grande intranquilidade. Algumas vezes, quando chegava ao seu gabinete, encontrava na secretária um exemplar do Avante. Era a provocação à espera de uma reacção que não surgia e, simplesmente, colocava o jornal no local mais apropriado, o caixote do lixo.
- Diga lá - dirigia-se ao cliente a funcionária sentada na sua secretária.
As boas maneiras não existiam. Durante anos aquele pessoal aprendera que o cliente não era mais do que um mero utente sem quaisquer direitos. As conquistas de Abril eram para ser mantidas, defendiam.
Matchipisse ensinou aos funcionários que primeiro teriam de se deslocar ao guichet, cumprimentar o cliente com um sorriso e só depois oferecer os seus préstimos.
- Pagar aqui, nem pensar! Tem de se deslocar à tesouraria em Alcântara - Matchipisse permitiu que todos os pagamentos fossem bem vindos e bastaria informar que o recibo seria remetido posteriormente para a morada constante na factura.
- Já está fechado! Amanhã abre às nove - informou também que um cliente é sempre atendido enquanto o pessoal estiver presente.
E com poucas alterações às atitudes desenvolvidas durante décadas, os resultados começaram a ser bem patentes.
Com determinação e sem grandes atribulações foi conquistando as mais de quarenta pessoas do seu departamento. Dois anos depois, poucos se lembravam do abaixo-assinado. Nunca fez qualquer menção ao sucedido e soube que a Administração simplesmente rasgara a petição.
Mais tarde, com a aposentação de um elemento dirigente de um outro departamento, passou a acumular dois sectores distintos e foi promovido ao nível de chefia superior.
No fim do dia, dirigiu-se a um trabalhador, já idoso e conhecedor de alguns segredos profissionais que não queria partilhar, para o auscultar sobre um determinado problema. Pressentiu que ocultava com uma rapidez invulgar qualquer coisa debaixo do espaço aberto da sua secretária. Curioso, quando toda a gente saiu, tentou decifrar o enigma e encontrou um boneco de trapos, mascarado com barba e bigode, todo trespassado por uma faca afiada que se encontrava debaixo do mesmo. Sentiu um nó na garganta e, recordando-se da face demoníaca do seu colaborador a desferir golpes acobardados naquele boneco inerte, desferiu dezenas deles até ver alguns raios de algodão serem vomitados e esventrados pelo seu sósia em sofrimento inócuo.
Recordou as cenas de feitiçaria utilizadas na sua terra e que eram constantemente realizadas por pessoas fragilizadas, ansiosas por obter uma determinada graça. O Inoque e a Gracita, casados há dez anos, moradores na Chipangara e que procuraram cuchecucheiro para os ajudar a procriar. O problema era simples. Só teriam de trazer vivo o primeiro cabrito preto que encontrassem e as cuecas que a Gracita estivesse a usar. No dia seguinte lá estavam. O cabrito foi sacrificado na sua presença e as cuecas lavadas com o sangue vermelho daquela morte desnecessária. Depois, o pénis do Inoque foi envolvido pelas cuecas húmidas e sangrentas e mantido nesse banho Gracita durante dois dias. E o mais engraçado é que, coincidência ou não, um ano depois eram pais de uma criança linda, desejada há mais de uma década.
A conquista na empresa tinha sido quase geral. Ninguém se lembrava que era um estranho e respeitavam-no por ter introduzido mudanças de atitude.
Meses depois, o trabalhador que desferia golpes no boneco de trapos sofreu um problema de saúde e morreu pouco depois de se ter aposentado.
Nessa mesma noite, quando Bebi contava às filhas o trajecto de uma vida há tão pouco tempo iniciada, Matchipisse sem referir a morte que o trazia perturbado há horas, olhava para as filhas e só pedia a Deus ou à cigana que o protegia, que não exigisse delas o que a ele tinha facturado. Já tinha sofrido o suficiente.
A filha mais velha, universitária, ouvia com atenção os episódios de tanta mudança e registava-os com dedicação no seu grande livro de orgulho que sentia pelos pais.
A mais nova, sem ainda compreender as reais circunstâncias da descolonização, afiançava que a felicidade só podia ser o resultado das escolhas premeditadas.
Sorrindo e remetendo-se para o olhar profundo de Bebi, Matchipisse tentava recordar somente os bons momentos pós-descolonização, não querendo sequer pensar nos amigos que se perdiam pelo mundo, no convívio são que desaparecera, nas paisagens africanas que idolatrava, no Índico quente que o acalmava. Agradeceu, sem palavras, os passos impulsionados há poucos anos pela força sombria de uma cigana. Imaginava-a agora, esbelta como sempre e com um cravo vermelho preso nos cabelos a incentivá-lo na caminhada:
- Continua meu amor e mantém o ritmo que te imprimi. Saberei esperar pela noite infinita do nosso reencontro.
E a imagem da cigana desvanecia-se tão depressa como surgia.
XIII
O jantar do reencontro já se tornara assimilado e quase recordação.
Coutinho, o dono do Pub onde todos amanheciam, apagara as luzes umas quantas vezes, na expectativa de que o grupo, alargado por outros que entretanto se iam juntando, se dispersasse.
- Ei pessoal! Já são cinco da matina e temos de fechar. Se quiserem há por aí umas toalhas de mesa que bem podem fazer de cobertores - gracejava o Coutinho. E entredentes, continuava, ansioso para que o grupo não se ausentasse:
- Nos nosso terra camaradas, não pricisa haver os cama pra chão! Só precisa dos chão pra cama!
Já era músico em Moçambique e a voz, tão parecida com a de Louis Armstrong, concedeu-lhe a oportunidade de aqui sobreviver a cantar e de poder ser escutado com agrado. A mulher, madeirense, discretamente insistia com o marido para que a festa acabasse. A noite tinha sido longa, a conversa não lhe dizia nada, estava cansada, o sábado seria novamente muito concorrido e teria ainda montes de preparativos para efectuar. Mas o Coutinho queria continuar a mitigar da sensação de estrangeiro de que ainda não se conseguira libertar. E na sua casa tinha um orgulho desmedido de se sentir diferente. Cantava para esquecer e para deliciar quem, para esquecer, também o ouvia.
Agora, seriam cerca de trinta a cantarolar as canções esquecidas do escutismo e as músicas de sonho de uma independência que ninguém recordava com saudade.
A Jú entretanto aparecera. O actual marido, mais velho e também da Beira, perplexo com a alegria evidenciada naquele grupo de moçambicanos, tinha-lhe telefonado para se juntar a pessoas que, decerto, seriam da sua geração. Quando se aproximou, olhou um bom bocado para os presentes e calculando que o marido se tivesse enganado, discretamente deu meia volta para se retirar.
- Jú! - chamou a Kate - Não te lembras de nós?
Rapidamente se voltou e uma vez mais olhou para os presentes à espera de um sinal que a fizesse retroceder mais de vinte e cinco anos.
-Jú! - insistiu Matchipisse - Olha bem! Qualquer coisa em qualquer um de nós te vai fazer reviver os bons tempos da nossa infância e da nossa juventude! As nossas férias
- Não posso crer! - com os olhos cheios de lágrimas, Jú repetia - Não posso crer! És o Matchipisse? E essa aí agarrada a ti só pode ser a Bebi e aquele o Nel e aquela a Kate e.... - entre abraços apertados e beijos saudosos foi reconhecendo cada um dos marcos da sua adolescência quebrada abruptamente para agora ser revivida com intensidade.
- Como é possível tanta emoção, Meu Deus! - insistia Jú - Acreditam que só senti semelhante felicidade quando fui avó? - e mostrando a sensualidade que sempre lhe fora característica, continuou - Tenho passado por mãe dos meus netos… ainda estou óptima, não acham? - rodopiando os trezentos e sessenta graus da sua eterna beleza, fez recordar as brincadeiras da infância.
- Orgulho-me imenso de ser avó, mas os meus netos tentam fazer-me passar por estranha. Farto-me de insistir com eles - continuava Jú - mas acreditam que só me tratam pelo nome?
- Ó Jú, consegues imaginar que também somos avós? - avançou Matchipisse - Ainda há tão pouco tempo brincávamos com as tuas bonecas
O Vic continuava a encher o fornilho do seu cachimbo para poder continuar a aspirar a fumaça da sua juventude. Arquitecto conceituadíssimo ofertara já os seus préstimos para projectar lares semelhantes aos que se recordavam. E confidenciava ao fofinho da Sky que adorava desenhar, que necessitava de o fazer para se sentir reorganizado e encantado. Que o seu trabalho não era mais do que um simples gesto à procura de uma alma. Sendo o fofinho professor catedrático e reitor de uma universidade com rasgos de arquitectura romântica e em devir, ficou desde logo programada uma visita àquela instituição.
As manas Sky, Anny, Bebi e Tété, ainda lúbricas, rebolavam-se enquanto cantarolavam Amêijoa do Macúti, a marrabenta criada pelo Coutinho. O irmão, John, acariciava a viúva de um amigo que não resistira à mudança e que sucumbira há vinte anos. Desde essa altura, ela não sabia o que era o aconchego desinteressado de um abraço amigo. Nem o beijo desprendido de prazeres lascivos que aconteceram depois, naturalmente, quando assistiam ao despertar de um saudoso sol a crescer para o mundo, lá para os lados da praia do Guincho.
O Nel, sem ainda ter tocado numa pinga de álcool, continuava a querer saber todos os pormenores da vida da amada que não via há tantos anos. Deixara-a na Rodésia quando fora expulso desse país. Desde então, os seus objectivos se resumiram a nada. Perdera-se em subterfúgios condenáveis, desgostara a família com comportamentos nunca diligenciados e só agora, há muito pouco tempo, decidira traçar um rumo sem correntes perdidiças. Nessa noite, pela primeira vez, enviava uma mensagem à sua Chris dizendo-lhe que ainda sonhava com ela. A Kate, recordando os cabelos compridos dessa amiga que lá permanecia, permitiu o contacto que Nel sempre desejara. A paixão reacendeu-se e nem sequer o marido da ex-namorada poderia tornar-se no obstáculo para o reencontro há décadas adiado.
Sem qualquer sinal de cansaço e sem nunca engolir o fumo do cigarro sempre aceso, Maleca continuava a olhar os seus rebentos com a mesma ternura de outrora. Sentia-se nos olhos, no sorriso e na tentativa, não alcançada, de engendrar um passo de dança, o orgulho de os ter conseguido transportar a um bom porto.
Depois de recordada a peripécia do Clube Português, Jenny, banhando-se numa qualquer praia da Austrália, foi acarinhada com saudade pela Kate e por Matchipisse. Depois, Tom estimulou Coutinho a servir mais uma rodada ao grupo que começava a ausentar-se. Os vinte e cinco anos volvidos permitiam-lhe arrecadar com as rodadas que entendesse. Mas, esse período de tempo ainda o não preparara para olhar de frente para a Kate e dizer-lhe abertamente que a paixão se mantinha. No seu olhar adivinhava-se unicamente a necessidade de continuar a sorrir de esguelha para a princesa encantada da sua adolescência.
Kate não tinha sido feliz com o tradicional helénico casamento. Não se importava agora de quebrar com as tradições milenares da ilha dos seus antepassados. Queria o Tom da sua adolescência e, de certeza, seria correspondida pelo português dos seus sonhos envergonhados.
Tom, nervoso pelo sorriso encantado da sua eterna adolescente, ainda interrompeu John enquanto este afagava, com ternura, o pescoço da viúva:
- Ó John, sei que agora és funcionário superior na banca. Temos que agendar uma reunião para te fazer a apresentação de uma solução informática, ok? Olha que já tenho os bancos quase todos e não quero que percas o comboio do desenvolvimento, percebes? - John sorriu, estendeu o polegar para o céu e voltou a abraçar a mulher que já não aguentava aceitar mais interrupções indesejadas.
Madú absorvia, uma vez mais, o ondular do corpo das irmãs; os itinerários da cidade que apenas assistira ao seu nascimento; as expressões de perplexidade, de nostalgia, de agrado, de cortesia; o sotaque dos mininos di África. Coleccionava tudo e no seu mundo da comédia e de estrelato fazia seguir a mensagem para os milhões das audiências. No dia seguinte, banhar-se-ia na piscina da sua casa de Alvalade, recordando os mergulhos que dera uns anos antes na banheira de Bebi.
A Lita bebericava o perfume do fumo do tabaco cubano do seu marido e insistia com as manas Sky, Anny, Bebi e Tété para cantarem novamente o Zum-zum, Arram-sam-sam, Wela-shela. Canções que elas tinham cantado durante toda a vida. Alturas houve em que o arrastamento das frases era arquétipo do envolvimento factual. Mas agora as canções eram entoadas com uma melodia muito mais alegre.
Embalado pelas músicas de um espaço que não entendia, o douto fofinho da Sky deixou-se adormecer, mantendo-se hirto na sua postura.
Eram já seis da manhã de um sábado que se afigurava radioso para todos.
Despediram-se. Ficou combinado que mais jantares teriam de ser realizados para a amizade se manter consolidada. E para as recordações de um luto ainda por fazer serem terapeuticamente revividas em grupo.
À saída, uma jovem e bela cigana pediu a mão de Matchipisse:
- Ó lindo, queres saber o teu futuro?
Matchipisse procurou nela a cigana que o desmedrara nesta vida. Não conseguiu encontrar as parecenças perspectivadas num subconsciente avivado pelas memórias recentes. Agarrou com amor no braço de Bebi e foram-se embora à conquista de mais um dia. O seu futuro já não interessava. O presente esquecido conquistara-o totalmente nessa noite.
Ao longe, muito ao longe, ouvia-se o movimento do carro do lixo a tentar limpar os resquícios da noite mais dilatada das recordações de uma vida.
Fim
POSFÁCIO
Até ao dia 24 de Abril de
Para os nascidos em Portugal foi o desmantelar de uma vida repleta de aventuras, de sacrifícios. Do abandono da terra que lhes dera a oportunidade de um dia ser gente. Formados pelas dificuldades dos trópicos, retornaram com esse grande tesouro às suas terras de origem. Alguns, poucos, desistiram. Outros, em busca de novas aventuras, superaram as derrotas que lhes estavam destinadas.
Para os naturais de Moçambique que lá ficaram foi o desejo arrependido de perceberem o quão difícil era usufruir dos bens deixados pelos ‘colonizadores’. Enfrentaram uma guerra ainda mais fratricida que a anterior, debateram-se com a fome que não conheciam e, finalmente, sentiram o desejo de um reencontro com o passado que já não era possível acontecer. Apenas a língua de Camões ficara. Muitos morreram, alguns venceram e só meia dúzia, através de esquemas pouco ortodoxos, superaram as derrotas que tinham delineado como vitórias.
Para os naturais de Moçambique que se refugiaram em Portugal, o futuro foi sentido como o despejar de um saco cheio de história num vulgar contentor de lixo. Foram apelidados de retornados quando não retornavam a nada. Considerados indesejados se conquistavam privilégios reservados aos indígenas. Trocados entre familiares portugueses pelo esquecimento rápido dos laços de afecto que tinham sido enriquecidos pela correspondência lenta e mentirosa de outrora.
Para os portugueses residentes em Portugal foi o derrube de barreiras aperreadoras e preconceituosas que se mantinham dinâmicas há dezenas de anos. Mas hoje, e quem sabe, também amanhã, ainda sem o sucesso preconizado.
Esta história, igual a tantas outras ainda adormecidas na memória de muitos naturais das ex-colónias que resolveram fugir, encara a realidade do antes e após revolução dos cravos, através de duas únicas formas milenárias e indistintamente utilizadas. A comédia e a tragédia ou vice-versa.
Na antiguidade, realizava-se em Atenas o festival Lêneo, dedicado à comédia. O festival Dionisíaco concentrava-se na tragédia e tinha lugar em Março - Abril.
Esta é apenas uma de muitas estórias de uma história que ficou por contar quando um dia se deu o primeiro 25 de Abril comemorado em Portugal.
[1] Farinha de milho com que os naturais da Beira-Moçambique faziam acompanhar qualquer iguaria
[2] Pequena canoa construída de um único tronco de árvore
[3] Lama
[4] Automóvel Touring Clube de Moçambique
[5] Cerveja fabricada na região da Beira - Moçambique
[6] Garrafa de litro
[7] Campo de reeducação da Gorongoza, a cerca de
[8] Horta
[9] Pano colorido que as mulheres moçambicanas usam para se cobrirem
[10] Fronteira com o Zimbabwe, próximo de Mutare – na altura Rodésia, próximo de Umtáli.
[11] Termo utilizado para incentivar a violência (tareia?)
[12] Pessoas de pele branca
[13] Morreu
[14] Frigorífico
[15] Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais
[16] Autocarro
[17] Bairros residenciais na Beira
[18] Bairro em Johannesburg
[19] Aranha das rochas - nome atribuído aos afrikanners carentes de violência
[20] Está bem pá, tem calma!
[21] Música moçambicana que quando é dançada obriga a movimentos eróticos
[22] Feriados em honra de Cecil Rhodes (que descobriu a região), a quem se deve o nome de Rhodesia
[23] Férias da Páscoa
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